Antes de mudar de país quase toda a gente estuda bairros, vistos, impostos e operadoras de telemóvel. A saúde vai para a lista do «logo se vê, se for preciso». Depois, numa manhã qualquer, acorda-se com uma otite, o medicamento para a tensão acaba amanhã, ou o filho tem febre num domingo à tarde.
O problema quase nunca é a medicina
A Europa tem alguns dos sistemas de saúde mais respeitados do mundo. A dificuldade não está na qualidade dos cuidados, mas em perceber como lá chegar.
A quem se recorre primeiro? Um farmacêutico pode ajudar? Espera-se pela consulta no médico de família? Isto é caso para as urgências? Servia uma consulta online? A receita que se trouxe de casa ainda vale?
As respostas dependem não só do que se tem, mas também do país em que se está. Quem se engana com a saúde no estrangeiro raramente o faz por descuido: fá-lo porque parte do princípio de que todos os sistemas funcionam como aquele que deixou. Não funcionam — e não saber isso até ao dia em que é preciso é perfeitamente normal.
Erro 1. Esperar até já estar doente
Enquanto se está bem, perceber como funciona o sistema local parece coisa que pode esperar. Depois o «mais tarde» passa a ser hoje: dói, não se está bem, e tenta-se ler um site oficial numa língua que ainda se está a aprender. Nesse momento até as decisões simples parecem enormes.
Quinze minutos de saúde valem mais do que uma hora de pesquisa doente.
Erro 2. Saber apenas o nome comercial do medicamento
Entra-se na farmácia, mostra-se a caixa que se usa há anos, e o farmacêutico diz que não têm. Só depois se descobre que o medicamento existe, com um nome comercial completamente diferente.
Na Europa a mesma substância ativa vende-se com nomes diferentes consoante o país. Médicos e farmacêuticos identificam os medicamentos pela denominação comum internacional — o nome oficial da substância ativa — e não pela marca da embalagem.
Se toma alguma coisa com regularidade, guarde no telemóvel o nome da substância ativa. É muito mais útil do que uma fotografia da caixa.
Erro 3. Esperar que as farmácias funcionem como no país de origem
O papel das farmácias muda bastante de país para país. Em Portugal o farmacêutico é um profissional de saúde a quem se recorre muitas vezes em primeiro lugar para queixas menores: pode aconselhar tratamento para problemas comuns, explicar como se usa um medicamento e dizer quando é altura de deixar de se tratar sozinho e ver um médico.
Isso não faz da farmácia um substituto da consulta. Entre o conselho farmacêutico e o diagnóstico médico há uma linha real, e os medicamentos sujeitos a receita continuam regulados por lei: um farmacêutico não pode dispensar aquilo que legalmente exige a avaliação de um médico.
Perceber essa linha poupa a volta por três sítios à procura de uma resposta que só um deles pode dar.
Erro 4. Tratar as urgências como a opção por defeito
Quem vem de um país onde as urgências são a resposta para quase tudo vai achar a Europa surpreendente. As urgências existem para emergências: não para dores de garganta, nem para renovar receitas, nem para alergias sazonais, nem para uma cistite não complicada.
Escolher o nível de cuidados certo costuma significar esperar menos, para si e para toda a gente na fila. Para o que não espera pela semana seguinte mas também não é uma emergência, quase todos os sistemas têm um meio-termo: um centro de atendimento fora de horas, uma consulta no próprio dia ou os cuidados urgentes online.
Erro 5. Partir do princípio de que a receita viaja consigo
«Posso usar a receita que trouxe de casa?» Às vezes sim, às vezes não. Depende do país, do medicamento e da regulamentação local.
O erro não está na resposta, mas em perguntar quando a caixa já acabou. Se toma algo de forma prolongada, informe-se sobre como funciona aqui a renovação de prescrição enquanto ainda tem um mês de reserva.
Erro 6. Escolher o mais rápido em vez do adequado
Quando se está mal, a rapidez conta. A adequação também. Às vezes o caminho certo é uma consulta online com clínico geral. Às vezes é preciso uma consulta presencial no próprio dia e um exame objetivo. Às vezes a única resposta certa são as urgências.
Bons cuidados não são substituir uma opção por outra, mas saber qual corresponde à situação que se tem à frente.
Erro 7. Subestimar a rapidez com que a língua se torna um problema médico
Pedir o jantar num português imperfeito é uma coisa. Explicar que a dor começou de repente, piora quando se respira fundo e irradia para o ombro é outra completamente diferente.
Mesmo quem se desenrasca bem numa segunda língua tropeça quando está cansado, assustado ou com dores. Numa consulta a precisão conta mais do que em quase qualquer outra conversa, e é a primeira coisa que se perde. É por isso que muitos doentes estrangeiros procuram, sempre que podem, um médico que fale a sua língua.
Os quinze minutos que evitam quase tudo isto
Sente-se enquanto está de saúde e responda a cinco perguntas:
Qual é o número de emergência neste país?
Onde fica a farmácia mais próxima e qual está de serviço à noite?
Como se marca consulta no médico de família e o que é preciso para se inscrever?
O seu seguro inclui saúde privada, e o que cobre exatamente?
Para onde iria se amanhã de manhã se sentisse mal — e para onde levaria o seu filho?
Escreva as respostas num sítio onde as consiga encontrar às três da manhã.
A maior parte dos problemas de saúde no estrangeiro não começa com um diagnóstico. Começa com a incerteza, e a incerteza faz um problema pequeno parecer muito maior do que é. Oxalá nada disto seja preciso com urgência. Se for, vai ficar contente por ter procurado enquanto estava bem.
Este artigo é informativo e não substitui a orientação médica. Em emergência, ligue para o número de emergência local.




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