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Chama-se aborto espontâneo à perda involuntária da gravidez na sua primeira metade, antes do momento a partir do qual um bebé já pode ser levado para diante; onde fica exatamente essa fronteira, cada país define-o à sua maneira, habitualmente por volta da vigésima segunda semana. Acontece muito mais vezes do que se costuma pensar: cerca de uma em cada seis a oito gravidezes de que a mulher chega a saber termina em perda. Três perdas seguidas ou mais são raras, atingem cerca de uma mulher em cada cem. E quase nunca está por trás alguma coisa que a mulher tenha feito ou deixado de fazer.
Sinais que obrigam a procurar o médico
O sinal mais frequente é a hemorragia vaginal. É muito variável, desde uma perda acastanhada na roupa interior até sangue vermelho vivo com coágulos, e pode parar e recomeçar ao longo de vários dias. A segunda queixa é uma dor tipo cólica na parte baixa do abdómen e na zona lombar, parecida com a menstrual mas mais forte.
Há outros sinais: perda de líquido, expulsão de tecido e o desaparecimento repentino dos sinais da gravidez — mamas que deixam de doer, enjoos que passam. À parte fica a gravidez parada: não há queixa nenhuma e tudo se descobre numa ecografia de rotina.
Convém saber também o contrário: perdas escassas nas primeiras semanas são frequentes e em muitas mulheres a gravidez segue depois sem problemas. A hemorragia não é uma sentença, é motivo para ser observada. Perante qualquer perda de sangue ou dor, contacte o médico nesse mesmo dia; se já está a ser seguida, telefone diretamente à sua parteira ou ao serviço em vez de esperar pela consulta marcada.
Quando conta cada hora
Chame uma ambulância (em Espanha, Itália, Portugal, Polónia e Ucrânia, número único 112) se a grávida apresentar:
- hemorragia abundante: o penso fica completamente encharcado numa hora ou menos, o sangue é vermelho vivo e saem coágulos grandes;
- dor abdominal intensa, em geral de um só lado, que a impede de se endireitar ou de fazer o que quer que seja;
- dor na ponta do ombro ou por baixo da omoplata, sinal de sangue no abdómen;
- fraqueza súbita, tonturas, palidez, suores frios, desmaio;
- febre acima dos 38 graus, arrepios e corrimento com mau cheiro, sobretudo se o aborto já começou.
Por trás dos quatro primeiros pontos pode estar uma gravidez ectópica, quando o óvulo fecundado se implanta fora do útero, na maioria das vezes numa trompa. Manifesta-se entre a quinta e a décima quarta semanas e é perigosa pela hemorragia interna, por isso aqui não se espera pela manhã nem se conduz sozinha. O último ponto indica uma infeção no útero e também precisa de ajuda imediata. Se já perdeu três gravidezes, teve uma gravidez ectópica ou uma mola, numa nova gravidez será avaliada logo no primeiro contacto, sem esperar por credencial.
Porque acontece — e o que nada tem a ver
Três em cada quatro abortos ocorrem nos primeiros três meses e a causa é quase sempre a mesma: uma falha ao acaso no conjunto de cromossomas do embrião. As células recebem um cromossoma a mais ou ficam-lhes a faltar um, o embrião não consegue desenvolver-se e a gravidez para por si. É um acaso, quase nunca se repete e não significa que os pais tenham algum problema. Menos vezes a culpa está no desenvolvimento da placenta. Com a idade estas falhas tornam-se mais frequentes: antes dos trinta perde-se cerca de uma gravidez em cada dez, e perto dos quarenta quase metade. É uma propriedade dos óvulos, não do estilo de vida.
As perdas da segunda metade funcionam de outra maneira. Por trás está mais vezes uma situação da mãe: diabetes mal controlada, hipertensão grave, doenças da tiroide sem tratamento, lúpus, síndrome antifosfolipídica, doença renal. Podem contribuir infeções como a rubéola, o citomegalovírus, a listeriose, a toxoplasmose, a malária ou qualquer doença grave com febre alta. Outro grupo de causas é a forma do útero: miomas que deformam a cavidade, septos congénitos e a fraqueza do colo do útero, que se abre cedo e em silêncio, sem contrações. O tabaco, o álcool, as drogas e a obesidade importante aumentam o risco. Alguns medicamentos estão contraindicados na gravidez — metotrexato, retinoides, misoprostol, anti-inflamatórios não esteroides —, por isso confirme com o médico tudo o que tomar.
E aquilo que não aumenta o risco, embora seja precisamente disso que as mulheres se culpam: o stress, um susto ou uma má notícia; o trabalho, incluindo o que se faz de pé; o desporto e as relações sexuais; um saco levantado; uma viagem de avião; a comida picante; o café bebido antes de saber que estava grávida.
Como se confirma
O exame principal é a ecografia, quase sempre por via vaginal: nas primeiras semanas uma sonda pequena dá uma imagem muito mais nítida do que a observação através do abdómen, e é segura na gravidez. Vê-se se há saco gestacional no útero, se o embrião corresponde às semanas, se há batimento cardíaco e se ficou tecido quando a perda já começou.
O segundo exame é a análise ao sangue da gonadotrofina coriónica, a hormona da gravidez. O que importa é a evolução: colhe-se sangue duas vezes com cerca de quarenta e oito horas de intervalo para ver se o valor sobe ou desce. Uma única medição quase nada diz.
Muitas vezes nada se pode afirmar à primeira, sobretudo antes das seis ou sete semanas, quando o embrião ainda é minúsculo. Nessa altura a ecografia repete-se ao fim de uma semana ou dez dias. A espera é pesada, mas necessária: o diagnóstico de gravidez parada não se faz com uma única imagem duvidosa. Já agora determinam-se o grupo sanguíneo e o fator Rh, que farão falta mais adiante.
O que se faz a seguir
Se o útero já esvaziou por completo, não é preciso qualquer tratamento. Se ficou tecido, há três caminhos igualmente válidos e a escolha é em boa parte sua.
- Esperar. Na maioria dos casos tudo sai sozinho numa a duas semanas. Serve a quem prefere evitar qualquer intervenção e aceita a incerteza.
- Medicamentos. Fármacos que abrem o colo do útero e fazem o útero contrair-se; alguns administram-se por via vaginal. Começam a atuar ao fim de algumas horas e a sensação assemelha-se a uma menstruação muito abundante e dolorosa.
- Aspiração. Um procedimento curto em que o conteúdo do útero é retirado por vácuo, com anestesia local ou geral. Propõe-se logo em caso de hemorragia forte, de sinais de infeção e quando as duas primeiras opções não resultaram.
As complicações são raras em qualquer das três. Procure ajuda de imediato se a hemorragia se tornar muito abundante, se surgir febre ou uma dor aguda. As perdas ligeiras podem durar até três semanas; enquanto durarem, não use tampões e evite banhos em piscinas e águas abertas, o que reduz o risco de infeção. Ao fim de três semanas faça um teste de gravidez em casa: se continuar positivo, consulte o médico. E pergunte pelo seu fator Rh: às mulheres Rh negativo administra-se em certos casos imunoglobulina anti-D para proteger as gravidezes futuras.
A recuperação e a gravidez seguinte
O corpo refaz-se mais depressa do que parece. A menstruação costuma voltar ao fim de quatro a oito semanas, embora o ciclo demore alguns meses a regularizar-se. A ovulação pode ocorrer logo ao fim de duas semanas, antes desse primeiro fluxo, pelo que, se de momento não se pretende engravidar, a contraceção começa de imediato. Às relações sexuais volta-se quando as perdas cessaram e quando se quer; não há prazos rígidos. O cansaço e a falta de concentração duram semanas, e isso é normal.
Não há razões médicas para esperar meio ano antes de tentar de novo: o habitual é aguardar pelo menos uma menstruação, para ser mais fácil datar a gravidez, e depois orientar-se pela própria disponibilidade, física e emocional. Convém começar antes o ácido fólico e rever com o médico as doenças crónicas e a medicação habitual. E o mais importante: depois de um aborto espontâneo as probabilidades de uma gravidez que chegue ao fim continuam altas, e a maioria das mulheres leva a seguinte sem complicações.
O que se sente depois da perda
É um luto verdadeiro, mesmo que a gravidez tenha sido muito curta e ninguém soubesse dela. Atordoamento, lágrimas, raiva — inclusive das amigas com carrinho de bebé —, culpa, insónia, incapacidade de se concentrar no trabalho. Pode chegar não logo, mas semanas depois, quando a azáfama passa; e dói à parte na data prevista para o parto e no aniversário.
O companheiro também vive a perda, apenas muitas vezes em silêncio: o homem julga com frequência que o seu papel é aguentar e amparar, e adia o próprio luto. Vale a pena falar disto em voz alta, senão cada um se fecha no seu silêncio. Elaborar a ritmos diferentes é normal, não é sinal de indiferença. Se quiser assinalar de alguma forma a memória — um nome, uma data, um pequeno gesto —, é perfeitamente legítimo e não é preciso explicá-lo a ninguém; o que é possível em termos de despedida depende das semanas de gravidez e da prática de cada unidade, pergunte à sua equipa.
Peça ajuda se ao fim de algumas semanas não estiver melhor, se não conseguir dormir nem comer, se a angústia não a deixar viver ou se voltar a ideia de que não vale a pena continuar. Não é fraqueza: há psicólogos e psicoterapeutas que trabalham com o luto, e grupos de apoio para quem passou por uma perda existem quase em toda a parte.
Quando se procura a causa: perdas repetidas
Depois de uma só perda a causa não costuma ser investigada: é demasiado provável que tenha sido acaso. O estudo propõe-se após várias perdas seguidas — na maioria dos países a partir de três, e mais cedo se foram tardias ou se existem fatores de risco conhecidos.
O que se verifica habitualmente: no sangue os anticorpos antifosfolipídicos e o anticoagulante lúpico, duas vezes com várias semanas de intervalo e fora da gravidez; a função da tiroide; a forma do útero na ecografia, para localizar um septo ou um mioma que deforme a cavidade. Os cromossomas do casal e, quando possível, os tecidos da gravidez perdida estudam-se à parte, pelo cariótipo; se houver algum achado, propõe-se aconselhamento genético.
Em cerca de metade dos casos não se encontra causa, e isso não é uma condenação: mesmo sem explicação, a maioria destes casais acaba por ter um filho saudável. Quando a causa é clara há margem para agir: a síndrome antifosfolipídica trata-se com aspirina em dose baixa juntamente com medicamentos que tornam o sangue mais fluido, as alterações da tiroide corrigem-se, o colo do útero fraco apoia-se com uma sutura ou com progesterona e um septo uterino retira-se cirurgicamente. Nestes casos a gravidez seguinte é acompanhada com ecografia precoce e vigilância frequente.
Consulta em linha
A conversa à distância resolve duas situações. A primeira, quando alguma coisa está a acontecer neste momento e não se percebe até que ponto é urgente: pela descrição das perdas de sangue, da dor e das semanas, o médico dirá se é preciso ir já, marcar uma ecografia hoje ou apenas observar. A segunda, depois: rever o relatório da ecografia e as análises, perceber a diferença entre as três formas de concluir e o que significa "aborto incompleto", se precisa de imunoglobulina anti-D e porque é que o teste continua a mostrar duas linhas.
Mais tarde chegam outras perguntas: quando se pode tentar de novo, que análises vale a pena fazer antes de conceber, o que fazer à medicação habitual e se compensa investigar já depois da segunda perda. Os limites do formato são evidentes: observar, fazer uma ecografia e colher sangue não se faz através de um ecrã, e perante uma hemorragia abundante, uma dor forte de um lado, dor no ombro ou um desmaio, o que é preciso não é um telefonema, mas uma ambulância.
Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.
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