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A vesícula biliar é uma bolsa pequena situada por baixo do fígado onde a bílis fica guardada entre as refeições. Assim que a comida chega ao duodeno, a vesícula contrai-se e liberta uma porção de bílis para desfazer a gordura. Se essa bílis fica parada muito tempo e muda de composição, precipita um sedimento, e do sedimento crescem as pedras: desde um grão de areia até ao tamanho de uma ameixa. A partir daí tudo depende de uma só coisa: se ficam sossegadas no fundo ou se avançam para a saída e a tapam. Na maioria das pessoas ficam quietas e durante anos não dão sinal. É por isso que a pergunta mais frequente na consulta não é «como as dissolvo», mas «será mesmo delas que vem esta dor?».
Como é uma crise
A pedra denuncia-se quando a vesícula se contrai depois de uma refeição gorda e a empurra para uma saída estreita. O canal fica fechado, a pressão interior sobe e nasce a cólica biliar. O nome engana: a dor não vem em ondas, sobe e mantém-se num patamar constante.
- dói por baixo das costelas do lado direito ou no meio da parte alta do abdómen, e por vezes irradia para a omoplata e o ombro direitos;
- é uma dor forte, surda, de distensão, sem posição que a alivie;
- dura de meia hora a várias horas e vai-se embora como veio, quando a pedra recua;
- aparece muitas vezes ao fim do dia ou de noite, uma ou duas horas depois de um jantar pesado;
- acompanha-se de náuseas e por vezes de vómitos que não aliviam;
- entre crises a pessoa sente-se bem.
As crises podem repetir-se uma vez por ano, uma vez por mês ou duas vezes na mesma semana: não há como prever. Só há um sinal claramente mau: uma dor que não cede ao fim de algumas horas já não é cólica, é uma complicação.
Porque nem sempre a culpa é da pedra encontrada
Encontram-se cálculos em muitíssima gente, e a dor de barriga é ainda mais comum, pelo que as duas coisas coincidem por acaso vezes sem conta. A ecografia mostra uma pedra, atribui-se-lhe qualquer incómodo, o doente é operado e a dor permanece. Antes de culpar os cálculos vale a pena rever aquilo que os imita:
- gastrite ou úlcera do estômago ou do duodeno: a dor anda com o jejum e acalma ao comer, em vez de começar depois da refeição;
- refluxo e dispepsia funcional: ardor, saciedade precoce, peso sem crise definida;
- síndrome do intestino irritável: a dor está ligada à dejeção e ao inchaço;
- cólica renal direita: a dor desce para a virilha e há sangue na urina;
- pneumonia do lobo inferior direito, com tosse e falta de ar;
- enfarte da parede inferior do coração: sabe disfarçar-se de dor «na boca do estômago» com náuseas e suor frio, e é o erro mais perigoso desta lista.
A verdadeira cólica biliar reconhece-se por dois traços: vem em crises e está ligada às refeições, com pleno bem-estar entre episódios. Um peso contínuo no lado direito não costuma explicar-se pelos cálculos.
Em quem aparecem mais vezes
A maioria das pedras forma-se a partir do colesterol que deixou de se manter dissolvido na bílis. Daí sai o retrato de quem as tem com mais frequência:
- as mulheres: as hormonas femininas alteram a composição da bílis e tornam mais lento o esvaziamento da vesícula;
- a gravidez e os partos, sobretudo vários;
- os preparados com estrogénios;
- a idade: quanto mais velha a pessoa, maior a probabilidade, e a partir dos quarenta sobe de forma nítida;
- o excesso de peso e uma alimentação carregada de gorduras e doces com pouca fibra;
- o emagrecimento brusco, as dietas severas, o jejum prolongado e o período a seguir à cirurgia da obesidade: a vesícula esvazia-se poucas vezes e a bílis estagna;
- a diabetes e os triglicéridos altos;
- a doença de Crohn e as cirurgias ao íleo, que perturbam a reciclagem dos ácidos biliares;
- os cálculos em familiares próximos;
- a cirrose do fígado e as doenças que destroem glóbulos vermelhos, onde as pedras são de outro tipo, pigmentares.
Sobre esta lista só é possível agir em parte, por isso convém gastar o esforço no essencial: comer com regularidade, sem jejuns longos e sem solavancos de peso. Emagrecer devagar é mais seguro do que emagrecer depressa.
Que perigos escondem
As pedras sossegadas raramente acabam em desgraça, mas toda a gente deve saber onde podem ir dar.
- Colecistite aguda. A pedra ficou encravada e a parede da vesícula inflamou. A dor não larga durante mais de algumas horas, sobe a febre e o lado direito dói ao toque.
- Pedra no colédoco. A bílis deixa de chegar ao intestino: a pele e o branco dos olhos ficam amarelos, a urina escurece, as fezes tornam-se claras e a pele fica com comichão.
- Colangite. À obstrução junta-se uma infeção que passa ao sangue. Dor, icterícia e febre com arrepios ao mesmo tempo são uma situação que se conta em horas.
- Pancreatite biliar. A pedra tapa também o canal do pâncreas. A dor cinge a cintura, atravessa para as costas e os vómitos não aliviam.
- Íleo biliar. É raro: uma pedra grande abre caminho até ao intestino e encrava lá. Vómitos, abdómen distendido, ausência de dejeções e de gases.
- Cancro da vesícula. Pouco frequente, mas quase sempre sobre cálculos antigos e inflamação crónica; por isso uma vesícula de parede calcificada ou com pedras muito grandes discute-se à parte com o cirurgião.
Como se confirma
O exame principal é a ecografia do abdómen superior, em jejum. Vê com fiabilidade as pedras dentro da vesícula e mostra ainda a espessura da parede e o calibre das vias biliares. Juntam-se-lhe as análises: os valores do fígado e a bilirrubina dizem se uma pedra passou para o canal, a amílase e a lipase se o pâncreas está envolvido, e o hemograma assinala a inflamação.
O ponto cego da ecografia é a parte baixa do colédoco, tapada pelo gás intestinal. Se as análises apontam para uma pedra no canal e a ecografia se cala, pede-se uma colangiorressonância, que desenha as vias biliares sem entrar no corpo; as pedras mais pequenas procuram-se com ecoendoscopia. À parte fica a CPRE: o endoscópio chega ao ponto em que o canal desemboca no intestino, alarga-se a saída e retira-se a pedra. Isso já não é um exame, é um tratamento.
O que se faz às pedras
Se os cálculos foram encontrados por acaso e nunca doeram, não se mexe neles: nem dieta, nem comprimidos, nem cirurgia preventiva — apenas saber que existem e conhecer os sinais que obrigam a procurar o médico. As situações raras discutem-se à parte — pedras muito grandes, vesícula calcificada, malformações das vias biliares — e aí quem decide é o cirurgião.
Se já houve crises, a solução principal é retirar a vesícula, quase sempre através de algumas incisões mínimas. Retira-se o órgão inteiro e não só as pedras: uma vesícula esvaziada com a mesma bílis volta a encher-se. A intervenção é curta, a alta chega depressa e ao fim de duas semanas retoma-se a vida normal.
Enquanto a crise decorre ou enquanto se espera pela cirurgia ajudam os analgésicos do grupo dos anti-inflamatórios não esteroides e os medicamentos que tiram o espasmo; se a dor for forte, o médico prescreverá algo mais potente. Convém pôr de lado a gordura, os fritos e as doses generosas, não porque a dieta cure as pedras, mas porque provoca menos crises. Existem ácidos biliares capazes de dissolver os cálculos de colesterol, mas servem a poucos, demoram meses e, ao suspendê-los, as pedras costumam voltar: reservam-se para quando operar não é possível.
A vida sem vesícula
A vesícula é um depósito, não uma fábrica: a bílis é feita pelo fígado e continua a ser feita depois da operação, apenas chega ao intestino de forma contínua em vez de aos golpes. A digestão mantém-se normal. Nas primeiras semanas há quem note dejeções mais frequentes e moles, sobretudo depois de refeições gordas; costuma passar sozinho e, se persistir, há medicamentos que fixam os ácidos biliares. Não é preciso dieta rigorosa para toda a vida: os alimentos habituais regressam aos poucos, observando a reação. Se depois da cirurgia voltarem as crises de antes, surgir icterícia ou a dor cingir a cintura, há que voltar a investigar em vez de aguentar: significa que a vesícula não era todo o problema ou que ficou uma pedra no canal.
Quando não se pode adiar
Chame uma ambulância — em Espanha, Itália, Portugal, Polónia e Ucrânia funciona o número único europeu 112 — se surgir:
- dor abdominal forte que não cede durante mais de algumas horas;
- dor juntamente com febre alta e arrepios;
- cor amarela na pele ou no branco dos olhos, sobretudo com dor e febre;
- dor que cinge a cintura e atravessa para as costas, com vómitos incontroláveis;
- confusão, fraqueza súbita, pele fria e suada, pulso rápido e fraco: são sinais de infeção generalizada;
- abdómen duro como uma tábua e doloroso ao mais leve toque.
Nesse estado não se conduz: a dor pode agravar-se pelo caminho. Leve consigo a lista dos medicamentos que toma. No próprio dia, ainda que sem ambulância, há que ver o médico se uma crise curta passou e voltou; se a urina escureceu e as fezes ficaram claras sem dor; se depois das refeições gordas há sempre náuseas e um puxar por baixo das costelas direitas.
Consulta em linha
Os cálculos biliares são precisamente o tema em que falar com um médico à distância resolve muito. O médico avalia se a sua dor se parece com uma cólica biliar, vê a ecografia e as análises que já tem e diz o que lhes falta, explica se a cirurgia é para agora ou se dá para vigiar, e aconselha como comer para que as crises sejam mais raras. Vale a pena marcar consulta também depois de retirada a vesícula, se a digestão não assentou. E lembre-se do reverso: uma dor que não cede, os olhos amarelos ou a febre com arrepios não são assunto para mensagens mas motivo para chamar uma ambulância, e na consulta dir-lhe-ão exatamente o mesmo.
Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.
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