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Cólera

A cólera é uma infeção intestinal que faz perder líquido mais depressa do que qualquer outra diarreia.

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Esta página fornece informação geral e não substitui a consulta de um médico. Se os sintomas forem graves, persistentes ou estiverem a agravar-se, procure aconselhamento médico com urgência.

A cólera é uma infeção intestinal que faz perder líquido mais depressa do que qualquer outra diarreia. A responsável é a bactéria Vibrio cholerae: ao chegar ao intestino delgado liberta uma toxina que obriga as células a bombear água e sais para o interior do intestino. A mucosa não é destruída, não há sangue nas fezes e habitualmente não há febre — o corpo simplesmente seca por dentro a grande velocidade. Daí a particularidade que define a doença: o que mata não é a infeção em si, mas a desidratação, e essa mesma particularidade faz dela uma das poucas infeções mortais que na maioria dos casos se trava a beber o que é correto. Na Europa a cólera não circula e os casos importados são raríssimos, mas a quem parte para uma zona com surto convém perceber como tudo funciona.

Como a bactéria entra no organismo

O contágio faz-se pela boca, com água ou alimentos contaminados pelas fezes de um doente. A via clássica é a água de beber vinda de uma fonte para onde escorrem águas residuais. Menos vezes entram em jogo os moluscos e o peixe crus ou mal cozinhados de águas costeiras poluídas, as hortaliças lavadas com essa água, o gelo feito com ela ou a comida já preparada que alguém tocou com as mãos sujas. No convívio normal a cólera não passa: falar, apertar a mão ou viajar no mesmo transporte com um doente não representa risco.

Para adoecer é preciso engolir muitas bactérias, porque o suco gástrico destrói a maior parte. O risco é por isso maior em quem tem a acidez reduzida: pessoas que tomam inibidores da bomba de protões durante muito tempo, operadas ao estômago ou crianças pequenas. Observou-se também que a doença é mais grave nas pessoas do grupo sanguíneo zero, ainda que contagiar-se possa qualquer pessoa.

Os surtos estão quase sempre ligados a locais onde o abastecimento de água colapsou: campos de refugiados, zonas atingidas por cheias ou sismos, bairros densamente povoados sem saneamento. Um turista alojado num hotel com água engarrafada corre um risco incomparavelmente menor do que um trabalhador humanitário na mesma cidade.

Como começa a doença

Entre o contágio e os primeiros sinais passam de algumas horas a cinco dias, mais frequentemente dois ou três. Um pormenor importante: a maioria dos infetados não nota nada ou tem uma diarreia ligeira indistinguível de qualquer outra. A forma grave surge em cerca de uma pessoa em cada dez, e foi ela que criou a fama da doença.

A diarreia da cólera é indolor e muito abundante. As fezes perdem depressa o aspeto habitual e tornam-se esbranquiçadas e turvas, com flocos: comparam-se à água em que se lavou arroz. Não há cólicas nem retorcimentos e, por isso, há quem continue a pensar que se trata apenas de uma indisposição passageira. Junta-se muitas vezes o vómito sem náusea prévia. Um adulto no auge da doença pode perder até um litro de líquido por hora, de modo que a desidratação avança em horas e não num dia: boca seca, olhos encovados, pele que perde elasticidade, cãibras nas barrigas das pernas, urina escura que depois desaparece, tensão a cair e uma fraqueza que chega ao desmaio.

Quando é preciso ajuda imediata

O perigo, aqui, é a rapidez. Sem tratamento uma cólera grave pode matar em poucas horas; com reposição de líquidos a tempo morre menos de uma pessoa em cada cem. A distância entre estes dois desfechos mede-se em horas, não em dias.

Ligue para o número de emergência se observar, em si ou em alguém próximo:

  • diarreia aquosa abundante que não para, sobretudo acompanhada de vómitos;
  • impossibilidade de reter o que se bebe;
  • ausência de urina durante mais de oito horas ou, numa criança, uma fralda seca meio dia;
  • olhos encovados e, num lactente, fontanela afundada e choro sem lágrimas;
  • pele fria e húmida, pulso rápido e fraco, tonturas ao tentar levantar-se;
  • confusão ou sonolência da qual é difícil despertar a pessoa.

Diga sempre ao pessoal de saúde que regressou há pouco de uma viagem e indique o país, mesmo que já tenham passado vários dias e tenha estado em casa entretanto. Essa frase muda por completo o rumo da avaliação.

Como se trata

A base do tratamento é água com sais e açúcar na proporção exata, ou seja, uma solução de reidratação oral comprada na farmácia. Água simples, chá ou refrigerantes açucarados não servem: não devolvem o sódio e o potássio perdidos, e as bebidas doces até podem agravar a diarreia. Bebe-se depois de cada dejeção líquida, em pequenos golos e de forma contínua, não apenas quando apetece; havendo vómitos, pouco de cada vez e muito amiúde.

Se a pessoa já não consegue beber ou perdeu demasiado, o líquido e os sais são administrados por via venosa. Isso faz-se no hospital e, na forma grave, é o soro que salva. Os antibióticos têm um papel de apoio: encurtam a diarreia e o período em que a pessoa contagia, mas não substituem o beber. Usam-se em regra fármacos dos grupos das tetraciclinas, dos macrólidos ou das fluoroquinolonas, e a escolha depende da idade, da gravidez e das resistências predominantes na região. Às crianças acrescenta-se zinco, que também encurta o quadro.

O que não se deve fazer é tomar medicamentos que travam o intestino, como a loperamida. Não resolvem o problema central, a perda de líquido, e em contrapartida retêm a toxina lá dentro. Comer pode e deve fazer-se logo que volte o apetite, e a amamentação não se interrompe.

Como não trazer a cólera da viagem

Tudo se reduz ao que chega à boca. Nas zonas onde há cólera:

  • beba apenas água engarrafada com o selo intacto, fervida ou desinfetada, e use-a também para lavar os dentes;
  • dispense o gelo nas bebidas: raramente é feito com água segura;
  • coma pratos quentes e acabados de preparar e escolha fruta que possa descascar;
  • evite moluscos crus, ostras e peixe pouco curado;
  • lave as mãos com água e sabão antes de comer e depois da casa de banho; se não houver água, use um desinfetante com álcool.

Existe uma vacina contra a cólera e não se injeta, bebe-se. A maioria dos viajantes não precisa dela: uma estadia normal numa cidade ou na costa quase não acarreta risco. Faz sentido falar dela se for trabalhar no centro de um surto, integrar uma missão humanitária ou seguir um percurso por locais remotos sem acesso a cuidados de saúde. Nos adultos são duas doses com um intervalo de uma a seis semanas e nas crianças pequenas são três; o esquema deve terminar pelo menos uma semana antes da partida. A proteção é parcial e dura um tempo limitado, pelo que a vacina não dispensa o cuidado com a água e a comida.

Consulta em linha

Antes da viagem, o médico a distância ajuda a avaliar com realismo o risco do percurso concreto, diz se vale a pena falar de vacinação e sugere o que levar na mala de medicamentos, a começar pelos sais de reidratação, bem mais difíceis de arranjar fora do que em casa. Se a diarreia já começou, o médico percorre consigo o quadro, ajuda a calcular quanto deve beber e enumera os sinais perante os quais é preciso ir de imediato ao hospital em vez de esperar pela manhã seguinte.

O formato a distância serve para avaliar a situação, preparar a viagem e rever as análises no regresso. A desidratação marcada trata-se apenas presencialmente: um soro não se coloca através de um ecrã e, nesse caso, a função da consulta é encaminhá-lo o mais depressa possível para onde o podem ajudar.

Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.

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