Deficiência intelectual
É uma característica estável do funcionamento do cérebro: a pessoa tem mais dificuldade em assimilar coisas novas, em resolver situações complexas ou…
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É uma característica estável do funcionamento do cérebro: a pessoa tem mais dificuldade em assimilar coisas novas, em resolver situações complexas ou desconhecidas e em governar o dia a dia sem ajuda de outros. Nota-se desde a infância e acompanha toda a vida, mas o peso que tem varia muitíssimo de pessoa para pessoa.
Atrás do mesmo diagnóstico há vidas completamente diferentes: a uns falta apoio apenas em tarefas invulgares, como tratar de papelada; a outros falta todos os dias e em tudo. Por isso a pergunta útil não é «qual é a gravidade», mas «o que é exatamente difícil e com que se pode compensar».
Não é o mesmo que dislexia nem que um atraso da fala
Os nomes confundem-se aqui mais do que em qualquer outro tema, e a confusão sai cara: durante anos dá-se à criança o apoio errado.
- Dificuldades específicas de aprendizagem: dislexia, disgrafia, discalculia. Falha uma única competência, a leitura, a escrita ou o cálculo. O raciocínio, a linguagem, a memória e a autonomia quotidiana mantêm-se intactos, e alguém com dislexia pode ser um engenheiro brilhante.
- Atraso da linguagem. A criança percebe o que lhe dizem e desenrasca-se nas coisas do dia a dia, mas começou a falar tarde. Muitas vezes recupera o atraso em relação aos colegas.
- Perda de audição. A criança não responde quando a chamam e não aumenta o vocabulário, não por não compreender, mas por não ouvir. É a primeira coisa a verificar.
- Autismo. É outra condição: dificuldade na relação com os outros e necessidade forte de que tudo se mantenha previsível, com qualquer nível intelectual. Pode surgir junto com a deficiência intelectual ou completamente à parte.
A deficiência intelectual distingue-se por as dificuldades atingirem ao mesmo tempo o raciocínio, a linguagem e as competências práticas do dia a dia, e não uma só área.
Até que ponto varia
De forma orientadora, fala-se em grau ligeiro, moderado, grave e profundo. A maioria situa-se no grau ligeiro, que muitas vezes nem sequer se nota de fora: a pessoa fala normalmente, trabalha, orienta-se no seu bairro, mas perde-se quando é preciso raciocinar depressa num ambiente novo, avaliar as intenções de terceiros ou reter uma instrução comprida.
Nas deficiências graves e múltiplas, a componente intelectual soma-se a problemas de visão ou audição, a limitações do movimento e à epilepsia. Essa pessoa precisa de ajuda para comer, lavar-se e deslocar-se, e por vezes de alimentação por sonda e de uma cadeira adaptada.
A ausência de fala não equivale a ausência de pensamento e de vontade — e este é o ponto mais importante de todo o tema. Muitas pessoas que não falam explicam-se muito bem: com gestos, com tabelas de imagens, com botões, com um tablet de voz sintética. Basta dedicar tempo a perceber como comunica cada uma para descobrir que pode escolher a comida, a roupa e as atividades e participar nas decisões que lhe dizem respeito.
Porque acontece
Em cerca de um terço das pessoas nunca se encontra a causa. Nas restantes, aparece habitualmente uma destas.
- Alterações cromossómicas e genéticas: síndrome de Down, síndrome do X frágil, pequenas perdas e duplicações de troços de cromossoma. Umas surgem por acaso na formação da célula, outras transmitem-se na família.
- Doenças hereditárias do metabolismo, como a fenilcetonúria e o hipotiroidismo congénito. Procuram-se no rastreio do recém-nascido, e esta é a parte mais animadora do assunto: se o tratamento começa nas primeiras semanas o desenvolvimento intelectual é normal; se esse momento se perde, deixa de o ser.
- Infeções durante a gravidez: rubéola, citomegalovírus, toxoplasmose, sífilis.
- Álcool durante a gravidez. Não está estabelecida nenhuma dose segura e o dano é irreversível: é a única causa verdadeiramente evitável de toda a lista.
- Prematuridade extrema, falta grave de oxigénio no parto, icterícia intensa do recém-nascido sem tratamento.
- Meningite e encefalite nos primeiros anos, traumatismo craniano grave, convulsões prolongadas que não se conseguiram travar, intoxicação por chumbo.
A paralisia cerebral, por si só, não afeta a inteligência, mas anda muitas vezes a par da deficiência intelectual porque partilham a origem: uma lesão do cérebro numa fase precoce.
O que se nota primeiro
O que preocupa não é um marco isolado que chega tarde, mas um atraso constante em várias frentes ao mesmo tempo: movimento, fala, compreensão e cuidados consigo. As crianças avançam de forma desigual, e uma criança que fala tarde mas mostra um interesse vivo pelo mundo está normalmente dentro do esperado.
Vale a pena consultar o médico se:
- ao ano não responde ao próprio nome, não estende a mão para os objetos e não olha para onde se aponta;
- aos dois anos quase não diz palavras e não cumpre pedidos simples como «dá-me a bola»;
- aos três anos não junta frases de duas ou três palavras nem entra em jogos de faz de conta simples;
- em idade escolar não acompanha o programa e, ao mesmo tempo, não resolve o corrente: vestir-se conforme o tempo, contar o troco, chegar a um sítio conhecido.
Há um sinal à parte: a perda de competências já adquiridas. A criança falava e deixou de falar, andava e desaprendeu, deixou de reconhecer as pessoas próximas. Isso não é desenvolvimento lento, é regressão, e tem de ser estudada depressa: atrás dela estão outras doenças, algumas das quais respondem tanto melhor quanto mais cedo se tratarem.
Como se chega ao diagnóstico
Não existe um exame único. Avaliam-se duas coisas ao mesmo tempo: como a pessoa raciocina e como se governa no dia a dia — se come e se veste sozinha, se se orienta na rua, se percebe o dinheiro e o perigo. Nenhum resultado de teste significa fosse o que fosse sem esta segunda metade.
Em paralelo, o médico procura a causa e, sobretudo, aquilo que agrava a situação e tem tratamento: perda de audição e de visão, tiroide pouco ativa, falta de vitamina B12, crises epiléticas frequentes, pausas respiratórias durante o sono, depressão. Por vezes, depois de tratados, a pessoa passa a desenrascar-se bastante melhor e percebe-se que o «diagnóstico» era em boa parte consequência de não ouvir nem ver o que se passava à sua volta.
O estudo genético não muda a deficiência em si, mas responde ao que preocupa a família: o que esperar mais à frente, que problemas de saúde são prováveis e qual seria o risco para outro filho.
O diagnóstico é feito em idades diferentes: nos primeiros anos quando é marcado e, quando é ligeiro, por vezes já em adulto, por alguém que passou a vida convencido de que simplesmente não servia para estudar. Um diagnóstico tardio também não é inútil: abre a porta aos apoios.
A saúde que passa despercebida
As pessoas com deficiência intelectual não adoecem menos do que as outras, mas são observadas mais tarde e tratadas de forma menos completa, simplesmente porque lhes custa mais pôr a queixa em palavras e quem está à volta atribui as mudanças ao feitio.
Surgem com mais frequência do que o habitual: epilepsia; obstipação intensa, por vezes até à oclusão intestinal; dificuldade em engolir, com engasgamentos e pneumonias repetidas; refluxo do conteúdo ácido do estômago; dentes descuidados; miopia e surdez por corrigir; excesso de peso ou, pelo contrário, peso a menos; ossos frágeis por pouca mobilidade e por anos de antiepiléticos.
Em quem não fala, a dor apresenta-se sob a forma de comportamento. Agressividade repentina, recusa da comida, insónia, balanceio, bater em si próprio: antes de chamar a isto um problema de comportamento é preciso excluir dor de dentes, obstipação, otite, retenção de urina, uma fratura. Uma mudança brusca de comportamento sem motivo aparente é uma questão médica e não educativa.
Capítulo à parte para os medicamentos. Os sedativos e os antipsicóticos são receitados a estes doentes mais do que o necessário e ficam anos sem revisão. Se um medicamento foi dado na altura «por causa do comportamento», convém confirmar uma vez por ano com o médico se ainda faz falta e se ainda naquela dose.
Por isso a um adulto com deficiência intelectual convém uma consulta de rotina mesmo quando nada o incomoda: peso, tensão, visão, audição, dentes, análises, revisão de toda a medicação e vacinas. Assim os problemas aparecem enquanto ainda se resolvem com facilidade.
O que ajuda mesmo
A deficiência intelectual não se cura, mas muito do que a pessoa hoje não sabe fazer ainda pode aprender — mais devagar e em passos pequenos.
- Começar o mais cedo possível. A terapia da fala, o trabalho sobre o movimento e o treino de competências do dia a dia rendem mais nos primeiros anos do que as mesmas sessões feitas mais tarde.
- Ensinar coisas concretas em vez de «desenvolvimento» em abstrato: apertar o casaco, usar os transportes, cozinhar dois ou três pratos, telefonar a pedir ajuda se algo correr mal.
- Manter uma rotina previsível e apoiar-se no que se vê: imagens, horários, etiquetas. Falar em frases curtas, uma ideia de cada vez, e deixar tempo para responder.
- Perguntar à própria pessoa e não apenas a quem a acompanha. Mesmo quando a decisão não é só dela, as suas preferências têm de ser ouvidas.
- Preparar com antecedência a passagem dos serviços de pediatria para os de adultos: é o momento em que o apoio mais se perde.
- Não esquecer quem cuida. O esgotamento da família faz à pessoa tanto mal como a própria condição, por isso o descanso e o apoio a quem cuida fazem parte do tratamento e não são um luxo.
Na consulta também se podem pedir coisas simples: mais tempo, explicações em linguagem clara e com imagens, a presença do acompanhante, uma marcação nas horas calmas. Não é um privilégio: sem isso a consulta pura e simplesmente não resulta.
Consulta em linha
A consulta à distância serve bem quando é preciso conversar e não examinar. O médico percorre o que preocupa no desenvolvimento da criança, indica por onde começar os exames e que especialistas procurar; ajuda um adulto ou os seus familiares a preparar as perguntas para a consulta presencial, a perceber relatórios já emitidos, a avaliar se está na altura de rever uma medicação de longa data e a ver que controlos de rotina estão há muito por fazer.
Procure atendimento presencial e sem adiar se a criança perdeu competências que já tinha, se surgirem convulsões, se a pessoa deixar de comer, mudar bruscamente de comportamento ou passar a engasgar-se cada vez mais e a ter episódios de febre com tosse.
Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.
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