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A doença celíaca não é uma alergia ao pão nem uma intolerância da moda: é uma reação imunitária para toda a vida contra a proteína de três cereais, na qual as defesas do próprio corpo destroem o revestimento do intestino delgado. O intestino deixa de absorver e a pessoa passa anos a tratar uma anemia, uns ossos frágeis ou uns «nervos» sem desconfiar do que o pão tem a ver com isso. Atinge cerca de uma pessoa em cada cem, e a maioria não sabe. O tratamento é um só: retirar o glúten para sempre. Mas há um passo que não deve ser dado antes do tempo.
O que a pessoa sente
O quadro dos manuais fala da barriga e aparece com mais frequência nas crianças:
- dejeções moles, claras e gordurosas, de cheiro intenso: a gordura por digerir custa a sair da sanita;
- inchaço, ruídos, gases e uma dor difusa no abdómen;
- obstipação teimosa que, ao contrário do esperado, não é menos frequente do que a diarreia;
- náuseas e vómitos, sobretudo nas crianças depois das refeições.
No adulto, porém, a barriga pode calar-se por completo e passa para primeiro plano tudo o resto:
- um cansaço atribuído ao trabalho e à idade, atrás do qual costuma estar falta de ferro, de vitamina B12 ou de ácido fólico;
- peso que se vai sozinho, sem dieta nenhuma pelo meio;
- uma erupção com vesículas que faz comichão nos cotovelos, joelhos, nádegas e linha do cabelo: a dermatite herpetiforme, o rosto cutâneo da mesma doença, que pode surgir sem qualquer queixa intestinal;
- aftas na boca que não fecham e esmalte manchado e escurecido nas crianças;
- formigueiro nos pés e nas mãos, instabilidade a andar;
- dores nos ossos e fraturas por pancadas banais;
- dificuldade em engravidar, abortos de repetição, ciclo irregular;
- na criança, crescimento e peso que estacionam, puberdade tardia, apatia.
Os sintomas vão e voltam, pelo que a ligação com a comida raramente se nota. E não sentir nada não prova nada: o intestino também se danifica em silêncio.
Porque é que o pão de sempre se torna inimigo
Glúten é o nome comum das proteínas do trigo, do centeio e da cevada; na maioria das pessoas passa e pronto. Na doença celíaca o sistema imunitário confunde uma das suas partes, a gliadina, com um intruso e acaba a agir contra o próprio intestino. Por dentro, o delgado está forrado por milhões de finíssimas vilosidades, e são elas que lhe dão a enorme superfície de absorção. A inflamação achata-as, a superfície fica lisa e os nutrientes passam ao lado sem serem recolhidos. Daí a anemia e daí os ossos fracos.
O gatilho conhece-se por metade. É preciso um terreno hereditário, as variantes dos genes HLA-DQ2 e DQ8, mas por si só dizem pouco: um terço da população tem-nas e adoece uma pessoa em cada cem. Falta algo mais para pôr o processo em marcha: infeções intestinais passadas, a composição da flora, provavelmente fatores ainda não identificados. Pode começar em qualquer idade, incluindo em quem comeu pão descansado durante meio século.
O diagnóstico e o erro que o estraga
Ninguém é rastreado em massa. As análises fazem sentido perante as queixas acima ou se a pessoa pertencer a um destes grupos:
- familiares em primeiro grau de um celíaco (pais, filhos, irmãos): o risco anda por um em dez;
- diabetes tipo 1, doenças autoimunes da tiroide, hepatite autoimune;
- síndrome de Down, síndrome de Turner;
- falta de ferro sem explicação e que não responde ao ferro;
- osteoporose ou fraturas numa idade em que não deviam existir;
- um rótulo de «cólon irritável» colado sem qualquer investigação;
- infertilidade e abortos de repetição que ficaram sem causa.
Começa-se pelo sangue: anticorpos antitransglutaminase tecidular em conjunto com a imunoglobulina A total, porque na carência congénita desta última o teste principal dá um falso negativo. Se os anticorpos estiverem altos, o gastrenterologista faz uma endoscopia e colhe amostras da mucosa. Em algumas crianças com valores muito elevados a biópsia pode ser dispensada; essa decisão é do especialista.
E agora a parte que justifica ter chegado até aqui. Até ao fim da investigação é preciso continuar a comer glúten. Se o pão for retirado umas semanas antes da colheita, a mucosa começa a cicatrizar, os anticorpos descem e o resultado sai negativo em quem tem mesmo a doença. Não há diagnóstico e as queixas voltam ao primeiro deslize à mesa. Para desfazer o enredo será preciso comer glúten de propósito durante semanas e repetir tudo. Aquele «vou experimentar uns dias sem pão, a ver se melhoro» é precisamente o que não se deve fazer antes da consulta.
Uma análise negativa também nem sempre encerra o assunto: com queixas persistentes o médico pode encaminhar na mesma para o especialista. Confirmado o diagnóstico, olha-se para o que a doença já estragou: ferro e ferritina, vitamina B12, ácido fólico, vitamina D, cálcio, função da tiroide; se houver suspeita de osso frágil acrescenta-se uma densitometria, e a erupção confirma-se com biópsia da pele.
O único tratamento
Não vem em comprimido. Da cozinha sai o trigo em todos os disfarces — farinha, sêmola, bulgur, cuscuz, espelta — e com ele o centeio e a cevada. Ou seja, adeus ao pão comum, à massa, à pastelaria, às bolachas, aos panados e a quase toda a cerveja, que se faz de cevada.
Resta felizmente muito: carne, peixe, ovos, laticínios, legumes, fruta, leguminosas, frutos secos, batata, arroz, trigo sarraceno, milho, painço, quinoa. Uma alimentação feita de produtos normais fica mais barata e mais saudável do que outra assente em produtos industriais sem glúten, que costumam ter menos fibra e mais gordura e açúcar. Nos primeiros meses um nutricionista vale muito, não para proibir, mas para que a alimentação não empobreça.
A pessoa sente-se melhor ao fim de poucas semanas, embora a mucosa demore mais a reparar-se: no adulto, até um ou dois anos. Enquanto isso, o leite costuma cair mal; é passageiro. Vale a pena uma revisão anual com peso, anticorpos de controlo e níveis de nutrientes. Se ao fim de anos de doença o baço trabalhar pior, ponderam-se as vacinas contra o pneumococo e a gripe.
Onde o glúten se esconde
Quase ninguém tropeça no pão; tropeça-se nos pormenores. Convém ler o rótulo mesmo onde não se espera armadilha: molho de soja, molhos ligados com farinha, cubos de caldo, enchidos, hambúrgueres preparados, extrato de malte nos cereais do pequeno-almoço, alguns medicamentos e suplementos, sobre os quais se deve perguntar na farmácia. A menção «sem glúten» significa por lei não mais de vinte miligramas por quilo, e a esmagadora maioria tolera esses vestígios sem problema.
A aveia não contém glúten, mas numa fábrica comum vem quase sempre acompanhada de trigo, pelo que só serve a aveia rotulada como sem glúten. E mesmo essa é melhor introduzir depois de falar com o médico: em poucas pessoas quem provoca reação é a proteína da própria aveia, a avenina.
Capítulo à parte é a cozinha partilhada: uma só tábua para todos, migalhas na manteiga e na compota, a torradeira da família, a água onde ferveu a massa comum. Tábua própria, frascos próprios e uma torradeira separada resolvem quase tudo.
O que pagam os que continuam a comer glúten
As complicações aparecem em quem desconhece o diagnóstico, ou o conhece e come na mesma:
- anemia teimosa por falta de ferro, de vitamina B12 ou de ácido fólico;
- osso que se adelgaça até à osteoporose e fraturas em idade pouco avançada;
- nas crianças, baixa estatura e puberdade tardia que nem sempre se recuperam depois;
- na gravidez, perdas, atraso de crescimento do bebé e baixo peso ao nascer;
- com o tempo, um baço menos eficaz e, por isso, infeções mais pesadas.
E há algo raro que é mais honesto dizer em voz alta: uma doença celíaca não tratada durante muitos anos aumenta ligeiramente o risco de tumores do intestino delgado, linfoma incluído. Os números absolutos são pequenos, a maioria das pessoas nunca se cruzará com isso e, ao fim de alguns anos de dieta rigorosa, o risco volta a aproximar-se do de qualquer outra pessoa. O equívoco mais resistente é o de que «um bocadinho não faz mal»: mesmo as doses ocasionais mantêm a inflamação, e o mais traiçoeiro é que não se sentem de todo.
Quando não se pode adiar
Procure o médico sem demora se:
- com dieta rigorosa tinha melhorado e, meses ou anos depois, regressam a diarreia, a dor e a perda de peso: na maior parte das vezes descobre-se uma fonte escondida de glúten, mas assim começam também a rara forma refratária e os tumores do delgado;
- o peso cai, há suores noturnos, febre sem constipação que a explique ou palpa-se um caroço no abdómen;
- surge sangue nas dejeções ou estas ficam pretas e alcatroadas;
- a diarreia e os vómitos não param, com fraqueza acentuada, cãibras musculares e confusão: a desidratação com perda de sais é rara mas exige hospital;
- dor súbita com o ventre duro, em tábua;
- uma criança deixa de ganhar peso e fica apática, com pernas inchadas.
Não é urgente, mas também não é para «um dia destes»: a erupção com vesículas nos cotovelos e joelhos, o formigueiro e a marcha insegura merecem igualmente consulta.
Consulta em linha
A consulta à distância cobre exatamente o ponto mais frágil: tudo o que acontece antes das análises. O médico percorre as queixas e a história familiar, diz que exames fazem sentido no seu caso e avisa para não retirar o glúten antes da colheita de sangue. Os resultados já na mão comentam-se bem no ecrã: o que significa cada valor, se é preciso biópsia, a quem recorrer a seguir. Com o diagnóstico já feito, à distância é cómodo tratar do regresso dos sintomas, do glúten comido por descuido, de como cobrir as carências e de como comer em viagem. O que não se faz à distância é diagnosticar sem análises, e os sinais da lista anterior veem-se presencialmente.
Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.
Médicos online para Doença celíaca
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