Encefalite japonesa
A encefalite japonesa é uma infeção vírica transmitida por mosquitos na Ásia e no Pacífico ocidental.
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A encefalite japonesa é uma infeção vírica transmitida por mosquitos na Ásia e no Pacífico ocidental. Os contágios são muitos, mas a esmagadora maioria passa despercebida: ou não acontece nada, ou fica por uns dias de mal-estar. O perigo está em que, numa pequena parte dos infetados, o vírus chega ao cérebro e provoca uma inflamação grave para a qual não há medicamento. Os viajantes adoecem raramente, mas é justamente a ausência de tratamento que faz recair todo o peso na preparação: a vacina e a proteção contra as picadas fazem-se antes da viagem, não depois dos primeiros sintomas.
Onde se apanha
O vírus vive num ciclo natural entre aves aquáticas, porcos e mosquitos. Os porcos funcionam como amplificador: neles o vírus multiplica-se com particular facilidade, e junto a uma suinicultura há bastantes mais mosquitos infetados. A pessoa entra nesse ciclo por acaso e não se torna fonte de contágio: a encefalite japonesa não passa de pessoa para pessoa, nem a cuidar de um doente, nem por via sexual, nem com a tosse.
O contágio ocorre nas zonas rurais do sul, do sudeste e do leste da Ásia, e também em algumas áreas da Oceânia: onde há arrozais alagados, canais de rega, baixas pantanosas e criação de porcos. Os bairros centrais das grandes cidades não costumam ser considerados de risco; os arredores e as aldeias com campos ao lado, sim.
Transmitem-no mosquitos do género Culex. Para a proteção contam dois dos seus hábitos: criam-se em água parada, incluindo os arrozais alagados, e picam ao anoitecer e durante a noite, ao contrário do mosquito que espalha o dengue, que é ativo de dia. Ou seja, aqui a proteção do fim da tarde e da noite pesa mais do que a do meio-dia.
A época depende do clima. Nas zonas mais frescas do norte da Ásia a transmissão dispara na estação quente e na das chuvas; perto do equador mantém-se todo o ano, com subida nos meses chuvosos. Convém confirmar a época do país e da região concretos mesmo antes de partir.
A quem o risco ameaça de facto
Para o turista comum que passa uma semana numa cidade e fica num hotel com ar condicionado, o risco é muito pequeno. Cresce quando a viagem se torna rural:
- estadias longas na área de transmissão, de um mês ou mais, sobretudo vivendo e trabalhando no local;
- dormir no campo, em tenda ou numa casa sem redes nas janelas, junto a arrozais, canais ou pocilgas;
- atividades que o mantêm na rua durante horas ao fim do dia: percursos de bicicleta e a pé, trabalho de campo e agrícola, pesca, observação de aves, trabalho com gado;
- viajar em plena época de transmissão, mesmo que a viagem seja curta;
- as viagens a casa de familiares no meio rural: quem regressa «a casa» muitas vezes não se considera viajante e nem sequer pensa no risco.
A doença é mais pesada nas crianças pequenas e nas pessoas idosas.
Como se manifesta
Entre a picada e os primeiros sinais passam aproximadamente cinco dias a duas semanas. A maioria dos infetados não sente absolutamente nada. Uma parte tem queixas inespecíficas, com as quais é impossível distinguir a encefalite japonesa de qualquer outra infeção:
- febre alta e arrepios;
- dor de cabeça;
- náuseas e vómitos, dor abdominal, diarreia;
- dores no corpo e fraqueza.
Em regra fica por aqui. Mas em menos de um em cada cem infetados a doença passa ao sistema nervoso ao fim de alguns dias, e o quadro muda de repente:
- dor de cabeça muito forte e rigidez da nuca;
- confusão, comportamento invulgar, delírio, sonolência até deixar de ser possível acordar a pessoa;
- convulsões — nas crianças são muitas vezes o primeiro e o mais visível dos sinais;
- fraqueza ou perda de sensibilidade num braço, numa perna, em metade do corpo;
- tremor, rigidez, movimentos lentos, perturbações da fala;
- nos lactentes, fontanela saliente, recusa do alimento, choro monótono.
É precisamente esta passagem a linha a partir da qual o tempo se conta em horas.
Quando é preciso chamar a emergência
Chame a emergência (em Espanha, Itália, Portugal, Polónia e Ucrânia atende o número único europeu 112) se a uma pessoa que regressou de uma zona onde ocorre encefalite japonesa, ou que ainda lá está, surgirem:
- febre juntamente com rigidez da nuca e dor de cabeça forte;
- confusão, comportamento estranho, impossibilidade de a acordar;
- convulsões;
- fraqueza ou dormência nos membros, dificuldade em falar;
- vómitos repetidos acompanhados de dor de cabeça intensa;
- uma erupção de pontinhos e nódoas negras que não empalidece à pressão.
Não conduza nem leve o doente no seu carro se ele estiver confuso: pelo caminho pode começar uma crise. Diga sem falta ao pessoal de saúde em que países esteve e quando, porque disso depende o leque de hipóteses; sem essa frase o estudo segue por outro caminho. A malária, o dengue, a raiva e a meningite bacteriana começam de forma parecida e exigem atuações completamente diferentes, e algumas delas têm tratamento, e tratamento urgente.
O que se pode fazer no hospital
Não existe medicamento que mate este vírus, e nenhum antivírico mostrou utilidade na encefalite japonesa. O tratamento hospitalar é de suporte, e é dele que depende o desfecho: controlam-se as convulsões, vigia-se a respiração e, se for preciso, passa-se ao ventilador, combatem-se o edema cerebral e a pressão elevada dentro do crânio, repõem-se líquidos, baixa-se a febre, alimenta-se por sonda e cuida-se de uma pessoa que não se mexe. Os corticoides, outrora prescritos nesta doença, não melhoraram a sobrevivência nos estudos, pelo que não é com eles que se pode contar.
Sobre o prognóstico convém falar com clareza, porque é dele que depende a decisão quanto à vacina. Chegando à inflamação do cérebro, morre aproximadamente um em cada quatro ou cinco doentes. Dos que sobrevivem, uma parte importante — entre um terço e metade, consoante as estimativas — fica com sequelas: fraqueza nos membros, crises convulsivas, perturbações da fala, quebra de memória e de atenção, alterações do comportamento. Nas crianças isto pode refletir-se no desenvolvimento posterior. A recuperação leva meses e exige reabilitação.
A vacina
A vacinação é a única medida que protege da doença em si e não apenas das picadas. A vacina é inativada, ou seja, não contém vírus vivo, e serve também a pessoas com as defesas em baixo. Vacinam-se tanto adultos como crianças a partir de idades precoces.
O esquema é de duas doses separadas por algumas semanas; para os adultos existe também um esquema acelerado. É por causa desse intervalo que se deve procurar a consulta do viajante ou o médico com antecedência, cerca de mês e meio antes de partir, e não uns dias antes. A proteção não surge logo a seguir à primeira dose. Se continuar a deslocar-se a zonas de risco, algum tempo depois do esquema inicial será necessário um reforço; os prazos dependem da vacina utilizada e será o médico a indicá-los.
A vacina discute-se, não se dá a toda a gente: o médico pesa a época, a duração da viagem, o tipo de alojamento e de atividades, a idade e o estado de saúde. É ponderada à parte na gravidez e em doenças graves, quando a decisão se toma comparando o risco da viagem com o risco da vacina. Os efeitos indesejáveis limitam-se em regra a dor no local da injeção, dor de cabeça e dores musculares nos primeiros dias.
E o essencial: quem está vacinado continua a proteger-se das picadas. A mesma atividade de mosquitos nos mesmos sítios traz dengue, chikungunya e, em muitas zonas, malária, contra as quais esta vacina não protege de todo.
Como evitar ser picado
- Aplique repelente na pele descoberta, com produtos à base de DEET ou icaridina. Ponha-o por cima do protetor solar e não por baixo, e renove-o conforme as instruções, sobretudo depois do banho ou de suar muito.
- Durma sob uma rede tratada com inseticida se o quarto não tiver redes nas janelas nem ar condicionado. Verifique se não tem buracos e se fica enfiada debaixo do colchão.
- Do anoitecer ao amanhecer use camisa de manga comprida, calças compridas, meias e sapato fechado; melhor tecido apertado e folgado, porque através de uma peça fina e colada à pele o mosquito pica à vontade. A roupa pode ser tratada com permetrina.
- Ao escolher alojamento no campo, prefira quartos com ar condicionado e redes nas janelas e evite instalar-se colado a arrozais, águas paradas e pocilgas.
- Retire a água parada à volta da casa: baldes, pratos de vasos, pneus, recipientes esquecidos — é aí que os mosquitos se criam.
Consulta em linha
A consulta em linha é mais útil antes da viagem. O médico percorre o itinerário região a região e época a época, avalia o tipo de viagem e de alojamento e diz-lhe se precisa da vacina contra a encefalite japonesa ou se o risco é demasiado pequeno para a fazer. Na mesma altura olha para a viagem no seu conjunto: que outras vacinas são precisas, se é necessária profilaxia da malária, o que levar no estojo de saúde e quando começar os preparativos para chegar a tempo com o esquema. No regresso, a consulta em linha faz sentido se surgirem febre e mal-estar: o médico revê as datas, cruza-as com o percurso e diz que análises são precisas e com que urgência. Mas perante confusão, convulsões, rigidez da nuca ou fraqueza nos membros não se espera por uma consulta em linha — chama-se a emergência.
Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.




