Meningite
A meningite é a inflamação das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal. Quase sempre é causada por uma infeção, e de qual se trata depende tudo…
Nesta página
- Porque se conta em horas
- Sinais em adolescentes e adultos
- Como se manifesta num lactente
- As manchas e a prova do copo
- Quando chamar uma ambulância
- De que resulta a meningite
- Como se transmite e quem corre mais risco
- Como se chega ao diagnóstico
- Como se trata
- O que fica depois
- Vacinas e proteção de quem está perto
- Consulta em linha
A meningite é a inflamação das membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal. Quase sempre é causada por uma infeção, e de qual se trata depende tudo: a meningite vírica costuma resolver-se sozinha numa semana ou dez dias, ao passo que a bacteriana pode tornar-se uma ameaça à vida em poucas horas. Distingui-las pelo aspeto não é possível, pelo que perante a suspeita de meningite não se espera nem se vigia em casa: chama-se uma ambulância.
Porque se conta em horas
As membranas do cérebro são banhadas pelo líquido cefalorraquidiano. Uma vez lá dentro, as bactérias multiplicam-se quase sem travão, porque as células de defesa são poucas. As membranas incham, a pressão dentro do crânio sobe e sofrem os nervos e os vasos que passam ao lado.
Em paralelo, essas mesmas bactérias podem passar ao sangue e provocar uma sépsis, com queda da tensão e má circulação nos membros e nos órgãos. A infeção meningocócica decorre por vezes sem qualquer meningite, apenas como sépsis, e então o que domina não são a dor de cabeça e a rigidez da nuca, mas a pele pálida e manchada, mãos e pés gelados, dores musculares e manchas na pele. Daí a regra principal: o estado piora muito depressa, por vezes literalmente em horas, e uma hora de atraso muda o desfecho mais do que qualquer esforço posterior.
Sinais em adolescentes e adultos
A doença começa normalmente de repente e evolui à vista. Devem alertar:
- febre alta, muitas vezes com arrepios, com as mãos e os pés frios;
- dor de cabeça intensa, diferente da habitual;
- rigidez da nuca: não se consegue levar o queixo ao peito;
- intolerância à luz forte, vontade de virar-se para a parede;
- náuseas e vómitos;
- dor intensa nos músculos, nas pernas e nas articulações;
- sonolência, confusão, dificuldade em acordar, comportamento estranho;
- respiração acelerada, uma crise convulsiva;
- manchas na pele, tratadas à parte mais abaixo.
Raramente surgem todos os sinais ao mesmo tempo, e a ordem pode ser qualquer uma. A combinação clássica de febre, dor de cabeça e nuca rígida pode faltar por completo, sobretudo em pessoas idosas e em quem tem a imunidade enfraquecida por doença ou por medicamentos. Nestes a meningite apresenta-se muitas vezes apenas como confusão ou sonolência invulgar sem febre, e é justamente neste grupo que mais escapa.
Como se manifesta num lactente
Uma criança pequena não se queixa de dor de cabeça nem de incómodo com a luz, pelo que os pais têm de se orientar pelo comportamento e pelo aspeto.
- recusa a alimentação, regurgita, vomita;
- chora de forma invulgar: agudo, monótono, diferente do costume;
- irrita-se quando lhe pegam ao colo ou, pelo contrário, está mole, apagada, não reage;
- a moleirinha da cabeça está saliente e tensa;
- o corpo está rígido, a cabeça deita-se para trás, há abalos;
- pele pálida e manchada, mãos e pés frios;
- respira depressa, de forma irregular, com gemido;
- febre alta ou, nos mais pequenos, temperatura abaixo do normal.
A impressão dos pais de que a criança «não está como em nenhuma doença anterior» é um argumento de peso, e não há que ter pejo em dizê-lo.
As manchas e a prova do copo
O exantema da infeção meningocócica começa com pontinhos vermelhos ou arroxeados, semelhantes a picadas de alfinete, que depois confluem em manchas e equimoses. A sua marca é não empalidecer: ao pressionar contra ele um copo transparente, os pontos continuam a ver-se através do vidro.
Desta prova há que perceber duas coisas. A primeira: manchas que não empalidecem sob o vidro indicam uma infeção grave do sangue e obrigam a chamar de imediato uma ambulância. A segunda, bem mais importante: o resultado contrário não prova nada. O exantema aparece tarde, no início chega a empalidecer à pressão e numa parte dos doentes nunca surge. Esperar pelas manchas para decidir pedir ajuda é o erro mais perigoso desta página.
Na pele morena e escura o exantema vê-se pior. Procure onde a pele é mais clara: palmas, plantas dos pés, abdómen, face interna das pálpebras, mucosa da boca, branco dos olhos.
Quando chamar uma ambulância
Chame uma ambulância (nos países europeus o 112) ou leve a pessoa ao serviço de urgência mais próximo se suspeitar de meningite ou de infeção do sangue. Não espere que se reúnam todos os sinais. Motivos para telefonar de imediato:
- febre juntamente com dor de cabeça intensa, nuca rígida ou intolerância à luz;
- manchas que não empalidecem sob o copo, ou equimoses que alastram depressa;
- confusão, delírio, sonolência invulgar, impossibilidade de acordar a pessoa;
- uma crise convulsiva;
- numa criança: choro agudo, moleirinha saliente, corpo mole, extremidades frias com febre alta;
- qualquer agravamento rápido no espaço de horas.
Enquanto a ajuda não chega, deite a pessoa de lado se estiver a vomitar ou a perder a consciência, baixe as luzes e não dê de comer nem de beber.
Existe ainda um degrau intermédio. Recorra ao médico no próprio dia se uma criança mantém febre e está apagada mas sem os sinais acima, ou se uma dor de cabeça intensa com febre surgir em alguém com a imunidade enfraquecida, depois de um traumatismo ou de uma cirurgia à cabeça. E lembre-se: o conselho de «vigiar em casa» deixa de valer no momento em que a situação piora. Nessa altura recorre-se de novo, sem receio de estar a incomodar.
De que resulta a meningite
A meningite vírica é a mais frequente e a mais ligeira. É causada por enterovírus, vírus herpes simples e vírus da papeira, e costuma passar em uma a duas semanas.
A bacteriana é menos comum, mas é a razão pela qual a doença é considerada perigosa. Os agentes habituais são o meningococo, o pneumococo e o Haemophilus influenzae do tipo b. Nos recém-nascidos surgem o estreptococo do grupo B e a Escherichia coli; em idosos, grávidas e pessoas com imunidade enfraquecida, a listéria.
Merece nota à parte a meningite tuberculosa: desenvolve-se em semanas e não em horas, começa com dor de cabeça crescente, prostração, perda de peso e febre baixa, e por isso é especialmente fácil confundi-la com outra coisa. Em pessoas com imunodeficiência grave observa-se meningite por fungos, também lenta. Por fim, as membranas podem inflamar sem qualquer infeção: como reação a certos medicamentos, em doenças autoimunes ou por tumores. São casos raros, mas explicam porque no hospital se estuda o líquido cefalorraquidiano e não se fica pelas análises ao sangue.
Como se transmite e quem corre mais risco
As bactérias que causam meningite vivem no nariz e na garganta de muitíssimas pessoas saudáveis sem dar qualquer sintoma. Transmitem-se com as gotículas de saliva e muco: ao tossir, ao espirrar, ao beijar, ao partilhar um cigarro, ao beber da mesma garrafa. Também é possível apanhá-las de um doente, mas isso acontece menos do que a partir de um portador saudável, e adoecem apenas muito poucos dos que recebem a bactéria.
O risco é maior:
- em lactentes e crianças com menos de cinco anos;
- em adolescentes e adultos jovens, sobretudo os que vivem em residências e quartéis;
- em pessoas idosas;
- em quem não tem baço ou o tem a funcionar mal, e na anemia falciforme;
- em caso de imunodeficiência, terapêutica que trava a imunidade, quimioterapia;
- após traumatismo craniano com saída de líquido pelo nariz ou pelo ouvido, após cirurgia à cabeça ou à coluna, e com implante coclear;
- em viagens a regiões onde a infeção meningocócica é frequente e em grandes ajuntamentos.
Ter tido meningite não protege: pode voltar a acontecer, e os episódios repetidos são por si só motivo para procurar a causa, seja um defeito das membranas após um traumatismo, seja uma particularidade congénita da imunidade.
Como se chega ao diagnóstico
No hospital o médico observa a pessoa, avalia o estado de consciência, procura os sinais meníngeos e as manchas e colhe sangue: hemograma, marcadores de inflamação, culturas e identificação do germe pelo seu material genético.
Quem decide o diagnóstico é, contudo, a punção lombar. Com uma agulha fina, entre as vértebras da região lombar, colhe-se um pouco de líquido cefalorraquidiano e vê-se quantas células tem e de que tipo, quanta proteína e quanto açúcar; depois semeia-se e procura-se nele o ADN dos agentes. É este exame que separa a meningite bacteriana da vírica e que indica com que antibiótico tratar; nem as análises ao sangue nem a tomografia o substituem. Não vale a pena recusá-lo por receio de que «danifiquem a medula»: a picada faz-se na região lombar, abaixo do nível em que a medula termina.
A tomografia à cabeça antes da punção não se faz a toda a gente, apenas perante certos achados: sinais neurológicos focais, convulsões, alteração profunda da consciência, imunodeficiência marcada. E aqui a regra é rígida: a espera pela tomografia não deve atrasar o antibiótico. Primeiro colhem-se as hemoculturas e administra-se o fármaco; os exames vêm a seguir.
Como se trata
Perante a suspeita de meningite bacteriana, o antibiótico é administrado na veia de imediato, sem esperar por resultados. Se mais tarde as análises mostrarem origem vírica, suspende-se; as horas perdidas, essas, não voltam. Ao mesmo tempo, quando se suspeita de pneumococo, administra-se um corticoide: reduz o inchaço à volta das membranas e diminui a probabilidade de perda de audição.
O resto do tratamento é de suporte: soros, oxigénio, analgesia, medicamentos contra o vómito e anticonvulsivantes se necessário. Se a respiração se alterar ou a tensão descer, a pessoa passa para cuidados intensivos. O tratamento da meningite bacteriana dura pelo menos uma semana, por vezes bastante mais, e todo esse tempo é passado internado.
Se se suspeitar de origem herpética acrescenta-se um antivírico, e também essa situação não admite demora. A meningite tuberculosa trata-se com uma combinação de fármacos antituberculosos durante meses.
A meningite vírica ligeira trata-se em casa: repouso, líquidos, analgésicos e algo para as náuseas. Mas essa decisão cabe ao médico depois de observar o doente, e não ao próprio.
O que fica depois
Depois de uma meningite vírica a maioria recupera por completo, embora a dor de cabeça e o cansaço possam durar várias semanas.
Depois da bacteriana ficam sequelas numa parte apreciável de quem a atravessa. A mais frequente é a perda de audição, que pode chegar à surdez total. Por isso a quem teve meningite bacteriana é marcado um exame auditivo, e o mais cedo possível: se a perda for profunda, a decisão sobre um implante coclear tem um prazo limitado, enquanto a cóclea não estiver preenchida por osso, e também aqui o atraso sai caro.
Surgem ainda crises convulsivas repetidas, dificuldades de memória e de concentração, cansaço fácil, alterações do equilíbrio, perda de visão e, nas crianças, dificuldades de aprendizagem e de comportamento. Depois de uma sépsis meningocócica podem ficar cicatrizes profundas, lesão dos rins e, se a circulação foi gravemente comprometida, a perda de dedos ou de um membro. Fica também uma marca psicológica: medo de médicos e de hospitais, sono perturbado, enurese na criança, ansiedade nos pais. É uma reação normal ao que se viveu e trata-se como as restantes consequências.
Vacinas e proteção de quem está perto
Contra as causas mais perigosas de meningite existem vacinas, e continuam a ser a melhor proteção. Há vacinas contra vários grupos de meningococo, contra o pneumococo e contra o Haemophilus influenzae do tipo b, e ainda as que previnem doenças de que a meningite pode ser complicação: sarampo, papeira, rubéola e varicela. As primeiras doses são dadas no primeiro ano de vida, seguem-se os reforços, e a adolescentes e jovens acrescenta-se uma dose contra o meningococo. Os prazos exatos e o conjunto de vacinas variam de país para país: confirme o programa nacional e pergunte ao seu médico de família se tem tudo em dia, no seu caso e no da criança.
Discutem-se à parte as vacinas antes de viagem a regiões onde a infeção meningocócica é frequente e antes de ir viver para uma residência coletiva; há doses adicionais previstas para pessoas sem baço e com perturbações da imunidade.
Quando se confirma uma infeção meningocócica, a quem teve contacto próximo dá-se um ciclo curto de antibiótico: coabitantes, parceiro, colegas de quarto, por vezes o grupo do infantário. Deve começar o mais depressa possível, e quem entra nesse círculo é definido pelo serviço de saúde pública, não pelos próprios familiares. Contactos ocasionais, como companheiros de viagem ou colegas do mesmo gabinete, não precisam de profilaxia. No dia a dia, coisas simples baixam o risco: não beber da garrafa de outra pessoa, não partilhar cigarros, não fumar perto de uma criança e arejar os espaços onde vive ou estuda muita gente.
Consulta em linha
Antes de mais o essencial: perante a suspeita de meningite, a consulta em linha não é o caminho. São precisos a observação e o estudo do líquido cefalorraquidiano, e o tempo gasto a escrever joga contra o doente. Se estiverem presentes os sinais da secção sobre a ambulância, ligue para o 112.
Já para tudo o que rodeia essa situação a consulta em linha serve bem. Antes: rever que vacinas já tem, e o seu filho também, o que falta, o que convém antes de uma viagem ou da mudança para uma residência, e o que fazer se alguém à sua volta adoeceu. Depois: discutir a carta de alta e as indicações, saber quando e onde fazer o exame da audição, o que fazer com o cansaço e a dor de cabeça que persistem e como regressar aos estudos e ao trabalho. Tenha à mão a carta de alta, o boletim de vacinas e a lista de medicamentos.
Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.




