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A mpox é uma infeção vírica que até há pouco se chamava varíola dos macacos. O nome foi um acidente da história: os macacos foram apenas os primeiros animais em que o vírus se detetou, ao passo que o reservatório natural são pequenos roedores africanos. Entre pessoas passa de outra maneira, por contacto corporal próximo, e por isso não circula como uma gripe mas antes como uma infeção ligada à intimidade. Dá febre e uma erupção muito característica e na maioria dos adultos resolve-se sozinha em duas a quatro semanas. Perigosas são as exceções: as crianças pequenas, as grávidas e quem tem as defesas enfraquecidas passam mal, e uma lesão no olho pode custar a visão. Esta página explica como reconhecê-la, o que fazer nos primeiros dias e em que momento deixar de esperar.
Como começa e que aspeto tem a erupção
Entre o contágio e os primeiros sinais passam habitualmente de cinco dias a três semanas, mais vezes cerca de uma semana. O início parece-se com o de qualquer infeção vírica: febre, dor de cabeça, dores musculares e lombares, arrepios, um cansaço que derruba. Há um pormenor que a distingue do sarampo e da varicela: gânglios claramente aumentados no pescoço, sob o maxilar, nas virilhas ou nas axilas.
Um a cinco dias depois surge a erupção, que atravessa várias fases: uma mancha plana, depois um alto firme, a seguir uma vesícula com líquido claro, depois uma pústula com o centro afundado e por fim uma crosta que fica alguns dias e cai. As lesões doem mais do que fazem comichão. Um traço importante: numa mesma zona de pele têm todas mais ou menos a mesma idade, tornam-se vesículas ao mesmo tempo e secam ao mesmo tempo. Na varicela convivem manchinhas recentes e crostas antigas, e essa é uma das diferenças principais.
Podem sair em qualquer parte, incluindo as palmas das mãos e as plantas dos pés, onde quase nenhuma erupção da infância aparece. É frequente a boca e a língua serem atingidas, e então comer e engolir dói. Se o contágio ocorreu durante uma relação sexual, as primeiras lesões podem estar só nos genitais ou à volta do ânus, por vezes uma ou duas úlceras apenas, e pode não haver erupção generalizada.
O envolvimento do reto merece nota à parte: dor anal intensa, vontade constante e enganosa de evacuar, corrimento e sangue. É uma forma frequente e verdadeiramente penosa, e um motivo habitual de internamento só para conseguir controlar a dor. A doença no seu conjunto dura de duas a quatro semanas. A pessoa continua contagiosa até caírem todas as crostas e por baixo aparecer pele nova.
Como se apanha
A via principal é o contacto direto de pele com pele e de mucosa com mucosa: abraços, beijos, massagens, sexo de qualquer tipo. O vírus está no líquido das vesículas, no pus e nas crostas, por isso contagiam tanto as lesões como a roupa de cama, as toalhas, a roupa, a loiça e os brinquedos sexuais de quem está doente. Uma conversa demorada cara a cara com alguém que tem úlceras na boca também pode acabar em contágio, mas exige proximidade e tempo: à distância a mpox não atravessa a sala.
O preservativo reduz o risco mas não o elimina, porque não cobre toda a pele que se toca. O vírus encontra-se também no esperma, pelo que depois da cura se aconselha mantê-lo durante cerca de doze semanas.
A terceira via são os animais, e conta apenas nas zonas de África onde o vírus vive de forma permanente: a dentada ou o arranhão de um roedor, desmanchar uma carcaça, carne de caça mal cozinhada. Ao regressar de lá convém vigiar-se durante três semanas.
Capítulo próprio é a gravidez: o vírus atravessa a placenta e pode provocar a perda da gravidez e uma infeção congénita no bebé. Perante qualquer suspeita de contacto, uma grávida deve consultar sem adiar.
Com que se confunde
Com quase tudo o que dá vesículas e feridas. Com a varicela: a diferença está na idade das lesões e nos gânglios. Com o herpes: o herpes forma um grupo de vesículas pequenas num só ponto e volta sempre ao mesmo sítio, enquanto a mpox se espalha mais e traz febre e gânglios. Com a sífilis: a sua úlcera não dói e é dura ao toque, e por isso perante um quadro parecido pede-se sempre a serologia da sífilis. Com a sarna, com a inflamação purulenta de um folículo, com um furúnculo vulgar. E, por fim, com uma reação a um medicamento.
Decidir a olho não compensa: quanto mais se parece com algo conhecido, mais fácil é errar. Todos estes quadros se tratam de maneira diferente e alguns, enquanto não são reconhecidos, continuam a passar aos parceiros.
Como se confirma o diagnóstico
O diagnóstico vem do laboratório, não do olhar. O médico colhe uma zaragatoa da lesão — líquido de uma vesícula, raspado do fundo de uma úlcera ou uma crosta que se soltou — e envia-a para PCR. Essa análise encontra o próprio vírus e é a que responde. Se as lesões são poucas mas as queixas existem, acrescenta-se uma zaragatoa da garganta ou do reto.
É igualmente útil saber o que não faz o diagnóstico. Umas análises de sangue correntes mostram apenas inflamação e nada dizem sobre a causa. A serologia não serve como exame diagnóstico: os anticorpos surgem tarde e não distinguem a infeção de uma vacinação antivariólica antiga. Pedir «análises ao sangue para a varíola dos macacos» não leva a lado nenhum; o que faz falta é a colheita da pele.
Já agora, vale a pena despistar outras infeções sexualmente transmissíveis: andam juntas e metade resolve-se numa semana, uma vez encontradas.
Quando é preciso ajuda urgente
Na maioria das pessoas a mpox passa-se em casa. Mas há sinais perante os quais não se espera e se chama uma ambulância; na Europa o número único de emergência é o 112:
- lesões na pálpebra ou no próprio olho, dor ocular, incómodo com a luz, visão a piorar — a córnea cicatriza depressa e de forma irreversível;
- dor de cabeça violenta, confusão, convulsões, pescoço rígido;
- dificuldade em respirar ou impossibilidade de engolir sequer água;
- dor abdominal, vómitos que não param, sinais de desidratação;
- vermelhidão que alastra, inchaço e calor à volta das lesões, pus, riscos vermelhos na pele — é uma infeção bacteriana sobreposta;
- dor retal muito intensa, retenção de urina ou impossibilidade de evacuar.
No próprio dia, ainda que sem ambulância, é preciso consultar se a erupção aparece num lactente, numa grávida, numa pessoa com VIH sem tratamento, depois de um transplante ou durante terapêuticas que baixam as defesas. Nestes grupos a doença é bastante mais séria e devem ser acompanhados desde o início.
Com que se trata
Por agora não existe um medicamento específico que encurte a doença de forma fiável: os antivíricos usam-se no hospital nos casos graves e no âmbito de estudos, e o seu benefício não está inteiramente demonstrado. O tratamento de base é de suporte e resolve o problema principal, que é a dor.
Alivia-se com paracetamol e, se for preciso, com anti-inflamatórios não esteroides. O ibuprofeno e os seus parentes não servem a toda a gente: com úlcera do estômago, doença dos rins, tensão alta, na gravidez avançada e junto com anticoagulantes só se tomam com o acordo do médico. Para as feridas da boca ajudam bochechos e géis anestésicos; para o reto, banhos de assento, amolecedores das fezes e uma analgesia que por vezes tem de ser acertada no internamento.
A pele mantém-se limpa e seca, e as lesões não se coçam nem se furam: é assim que ficam cicatrizes e entram bactérias. Uma crosta que verte cobre-se com um penso seco. As mãos lavam-se depois de cada contacto com a erupção e os olhos não se tocam: a maneira mais fácil de levar o vírus à própria córnea são os próprios dedos.
Como não transmitir e como proteger-se
Enquanto a erupção não sarar, a pessoa contagia. Nesse período é melhor dormir à parte, não partilhar toalhas, lençóis e loiça, lavar a roupa separadamente e sem a sacudir, e cobrir as lesões com roupa ou um penso ao sair do quarto. O sexo e qualquer contacto íntimo adiam-se até à cura completa, e o preservativo mantém-se mais doze semanas. Os animais de casa, sobretudo roedores, também é melhor mantê-los afastados: o vírus consegue passar para eles.
Da vacina faz sentido falar antes. As vacinas antivariólicas modernas protegem igualmente da mpox e são oferecidas a quem tem risco elevado de contágio e a quem já esteve em contacto com um doente. Neste segundo caso o que conta é a rapidez: quanto mais cedo se administra depois do contacto, mais serve, e a janela razoável são os primeiros dias. A quem é dada gratuitamente decide-se de modo diferente em cada país, por isso essa pergunta é para o médico de família e não para a internet.
Consulta em linha
Uma erupção é precisamente o tipo de motivo em que a consulta à distância rende muito. Ao médico servem uma fotografia com boa luz e o relato: quando começou, o que veio primeiro, a febre ou as lesões, onde apareceram as primeiras, se há feridas na boca, se os gânglios estão aumentados, se nas últimas três semanas houve novos parceiros, contacto com um doente ou uma viagem. A partir daí decide-se o essencial: se isto tem aspeto de mpox, onde ir fazer a colheita, se convém despistar ao mesmo tempo outras infeções e o que fazer da dor já hoje.
Uma parte própria da conversa é como não contagiar em casa: o que lavar, com que limpar, onde dormir, quanto tempo vai durar e quando se pode voltar à vida normal. Aqui uma resposta calma e detalhada faz mais falta do que uma observação.
Os limites devem ser ditos com franqueza. Uma colheita não se faz através de um ecrã e o diagnóstico não se confirma em linha: o médico dirá onde se dirigir. E perante dor no olho, confusão, dificuldade em respirar ou impossibilidade de beber, o que é preciso não é uma consulta, é uma ambulância.
Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.
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