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Entre «bebo como toda a gente» e «tenho um problema» não há uma linha nítida, e é justamente por isso que o problema passa despercebido durante anos. Não começa com uma garrafa escondida: começa quando o copo da noite deixa de ser uma escolha. A seguir fica dito onde passa a fronteira do risco, o que o álcool faz nessa mesma noite e o que faz vinte anos depois, por que sinais se percebe que a coisa foi além do hábito, e porque razão quem tem dependência grave não deve deixar de beber sozinho. Este último é o ponto mais subestimado de todos: a suspensão brusca pode ser mais perigosa do que a própria bebida.
Onde passa a fronteira
É mais prático contar álcool puro do que copos. Uma bebida padrão na Europa corresponde a cerca de 10 g de álcool puro: um copo de vinho de 100 ml, 250 ml de cerveja ou 30 ml de bebida destilada. As recomendações nacionais diferem, mas coincidem num ponto: não está estabelecida uma dose segura abaixo da qual o risco deixe de subir. Quanto menos, melhor, e qualquer número de «quantidade admissível» não é uma autorização mas um compromisso.
As referências práticas em que quase todos os serviços europeus concordam:
- quanto menor a quantidade semanal, menor o risco; o que se bebe não deve ser concentrado numa só noite, e vários dias da semana convém ficarem completamente secos;
- o dano depende da quantidade de álcool e não da graduação da bebida: para a mesma quantidade de álcool, cerveja, vinho e destilados equivalem-se;
- um perigo à parte são as quantidades grandes em pouco tempo, mesmo quando a média semanal parece modesta;
- na gravidez e quando se procura engravidar não existe quantidade segura, e é a única situação em que a recomendação não admite nuances: zero;
- o álcool não combina com a condução, com trabalho que exige atenção, com comprimidos para dormir e calmantes, nem com vários medicamentos correntes: analgésicos com paracetamol, antibióticos, fármacos para a diabetes.
O que acontece nessa mesma noite
O dano imediato do álcool não está no fígado mas no comportamento. Tira o medo, atrasa os reflexos e estraga a avaliação das distâncias, pelo que numa só noite se pode trazer para casa algo que dura anos: um traumatismo craniano, uma fratura, uma queimadura, um acidente, uma briga, sexo sem proteção, documentos perdidos.
Capítulo à parte merece a intoxicação alcoólica. Parece que a pessoa está simplesmente a dormir, e a armadilha está aí. Se depois de beber não acorda à voz nem à dor, respira menos de oito vezes por minuto ou com pausas longas, tem a pele fria, pegajosa e azulada, vomita repetidamente ou tem convulsões, ligue para o 112. Enquanto espera, vire-a de lado para que não se afogue com o vómito, não a deixe sozinha, não lhe dê café nem tente reanimá-la com um duche frio: arrefecê-la piora tudo.
O que se acumula ao longo dos anos
O segundo guião é mais silencioso. Anos de consumo regular não dão sintomas vistosos, e depois vem tudo ao de cima de uma vez:
- o fígado. Primeiro enche-se de gordura, o que é reversível se se deixar de beber. Depois chegam a inflamação e a cirrose, que já não volta atrás. O fígado não dói até muito tarde, por isso «não me incomoda nada» aqui não significa nada;
- os cancros. O álcool está classificado entre os cancerígenos comprovados para o ser humano. Aumenta o risco de cancro da boca, da faringe, da laringe, do esófago, do fígado, do intestino e da mama, e no caso da mama o aumento começa já com quantidades pequenas;
- o coração e os vasos. Tensão alta, arritmias, enfraquecimento do músculo cardíaco, acidente vascular cerebral;
- o pâncreas. A pancreatite aguda é uma dor em cinturão violentíssima com vómitos e põe a vida em risco; a crónica traz dor contínua, perda de peso e diabetes;
- o cérebro e os nervos. Memória e capacidade de organizar-se que falham, formigueiro e ardor nos pés, marcha insegura;
- o sono e o humor. O álcool faz adormecer mas destrói a segunda metade da noite, e a ansiedade e o abatimento crescem com ele, exatamente o contrário daquilo para que se bebe.
Em paralelo desmorona-se o que nenhuma análise mede: o trabalho, o dinheiro, as relações, a confiança dos filhos. Isso nota-se antes do laboratório.
Como perceber que é o álcool a mandar
A dependência não é uma questão de quantidade mas de perda de controlo. Vale a pena preocupar-se se pelo menos algo disto lhe disser respeito:
- já pensou mais de uma vez que devia reduzir, e não consegue;
- os comentários dos familiares sobre o assunto irritam ou provocam culpa;
- é preciso beber de manhã para acalmar o tremor e a ansiedade;
- para obter o efeito de antes já é necessária uma quantidade maior;
- há falhas de memória sobre a noite anterior;
- por causa da bebida caem planos, trabalho e promessas;
- o dia organiza-se à volta do álcool: o que comprar, onde beber, como justificar.
A dependência grave reconhece-se também pelo avesso: a pessoa tolera quantidades que deixariam quem não bebe francamente mal. Não é saúde de ferro, é tolerância adquirida, e quer dizer que o processo foi longe.
Parar de repente e sozinho é perigoso
É o mais importante deste texto. Com a dependência física já instalada, suspender o álcool de repente desencadeia uma síndrome de privação. Ao fim de 6 a 12 horas surgem tremor das mãos, suores, náuseas, ansiedade, insónia e oscilações da tensão e do pulso. Numa parte das pessoas não acaba aí: ao segundo ou terceiro dia podem aparecer uma crise convulsiva e um delirium, com confusão, alucinações, desorientação completa e febre alta. O delirium não tratado mata, e acontece em casa, a quem simplesmente decidiu deixar na segunda-feira.
Por isso, em quem bebe todos os dias, a paragem planeia-se com o médico. Às vezes é uma redução gradual, mais frequentemente um ciclo curto de benzodiazepinas sob vigilância, juntamente com tiamina: a vitamina B1 está em falta na dependência alcoólica, e essa carência durante a privação provoca uma lesão cerebral grave, com perturbação da memória e da coordenação, que pode ficar para sempre.
Ligue imediatamente para o 112 se surgirem:
- convulsões, confusão, ou a pessoa não reconhece as pessoas nem o lugar e vê ou ouve coisas que não existem;
- vómito com sangue ou fezes pretas e alcatroadas: é hemorragia das veias do esófago ou do estômago;
- dor forte na parte alta do abdómen que irradia para as costas, com vómitos que não param;
- pele e olhos amarelos, barriga a crescer depressa, pernas inchadas;
- febre e arrepios durante um período prolongado de bebida;
- ideias de se magoar a si próprio.
O que ajuda a sair
Não resulta uma medida isolada mas a combinação, ajustada à gravidade de cada caso.
- A terapia falada. A abordagem cognitivo-comportamental ensina a reconhecer o que despoleta a vontade — o stress, a companhia, certa hora do dia — e a desmontar ideias como «sem isto não descontraio». Há formatos para a família: viver ao lado de quem bebe também precisa de apoio;
- os grupos de ajuda mútua. Encontros regulares de pessoas com a mesma experiência; há vários programas, assentes em ideias diferentes, e convém procurar aquele que lhe assenta;
- os medicamentos. Uns reduzem a vontade, outros tornam a bebida fisicamente desagradável, outros ainda ajudam a diminuir a quantidade sem abstinência total. São prescritos pelo médico, o ciclo dura meses e quase sempre se combina com apoio psicológico;
- o diário. Uma semana de registos honestos — o que, quando e em que situação se bebeu — mostra um retrato que ninguém guarda de cabeça;
- o ambiente. Tirar as reservas de casa, falar com quem está próximo, decidir de antemão o que responder em convívio, arranjar com que ocupar a noite. Parece pouco, mas é aqui que o resultado se aguenta mais vezes.
E sobretudo: uma recaída não é o fim do caminho, mas uma parte habitual dele. O que conta não é se aconteceu, mas se no dia seguinte se voltou ao plano.
Consulta em linha
A conversa à distância é muitas vezes a primeira em que se fala disto sem rodeios, sem fila no corredor e sem o risco de encontrar conhecidos. O médico ajudará a calcular com honestidade quanto sai por semana e se já há sinais de dependência, verá como o álcool se combina com os seus medicamentos e doenças, indicará que análises convém fazer e explicará se pode parar por conta própria ou se a paragem tem de ser preparada com um médico. É também o sítio para perguntar por outra pessoa: como abordar o assunto, o que não fazer e onde procurar apoio para si. As situações da lista de sinais urgentes não se resolvem à distância: aí é preciso uma ambulância.
Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.
Médicos online para Uso problemático de álcool
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