Sangue na urina
O sangue na urina quase nunca dói. É por isso que é tão fácil deixá-lo passar: a urina fica rosada uma vez, no dia seguinte já está normal, nada incomoda, e…
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O sangue na urina quase nunca dói. É por isso que é tão fácil deixá-lo passar: a urina fica rosada uma vez, no dia seguinte já está normal, nada incomoda, e conclui-se que não foi nada. Foi alguma coisa. Ver sangue na urina é sempre motivo para procurar um médico e fazer exames, mesmo que tenha acontecido uma única vez e tenha desaparecido sozinho. A seguir explicamos porque somos tão taxativos, o que pode estar por trás, o que colore a urina sem ser sangue e em que casos não se pode esperar sequer até de manhã.
Porque até um só episódio tem de ser verificado
As causas de sangue na urina são muitas e a maioria não é perigosa. Mas é exatamente assim — urina colorida, sem dor, uma só vez, resolvida sozinha — que se anunciam o cancro da bexiga e o cancro do rim. Em fase inicial não dão qualquer outro sinal: não doem, não dificultam a micção, não dão febre, a pessoa sente-se bem. O sangue é o único aviso que mandam, e mandam-no poucas vezes.
Daí uma regra que soa mais dura do que gostaríamos: o sangue ter parado não quer dizer que a causa tenha desaparecido. Um tumor da bexiga sangra de forma intermitente: hoje há sangue, dentro de uma semana não há, e dois meses depois volta a aparecer. O intervalo sem sangue não é cura, é uma pausa.
A investigação, aliás, termina quase sempre em boas notícias, e é esse o sentido: um tumor da bexiga descoberto cedo trata-se, descoberto tarde corre muito pior. Entre esses dois desfechos está uma consulta.
É preciso ser observado também se tomar medicamentos que tornam o sangue mais fluido. Um engano frequente é pensar «são os comprimidos». Esses medicamentos não criam hemorragia a partir do nada: tornam visível algo que já lá estava. A investigação, nesta situação, é igualmente necessária.
Que aspeto tem e quando não é sangue
A urina com sangue pode ser rosada, cor de água de lavar carne, vermelha ou acastanhada como chá forte ou cola. O tom acastanhado costuma indicar que o sangue vem do rim e se alterou pelo caminho; o vermelho vivo, que a origem está mais abaixo, na bexiga ou na uretra. Por vezes veem-se coágulos e, por vezes, o sangue aparece só no início ou só no fim da micção.
Mas urina vermelha nem sempre é sangue. Também a coloram:
- a beterraba, as amoras, o ruibarbo e os alimentos com corantes vermelhos;
- alguns medicamentos: certos antibióticos, antimicrobianos e laxantes, e alguns fármacos para a dor na bexiga. Quando um medicamento tem essa propriedade, vem indicada no folheto informativo;
- o sangue menstrual que se mistura com a urina;
- uma hemorragia do reto, vista na sanita e confundida com sangue na urina.
Há três coisas que ajudam a distinguir. A coloração por alimentos ou medicamentos mantém um tom uniforme do início ao fim do jato e desaparece um ou dois dias depois de se deixar o alimento ou o medicamento. O sangue é mais frequentemente irregular, pode formar coágulos e volta sem qualquer relação com o que se comeu. E o critério mais fiável: uma análise de urina responde à pergunta em poucos minutos. Enquanto não houver análise, parta do princípio de que é sangue: errar nesse sentido não custa nada, errar no sentido contrário custa tempo.
O que está por trás mais vezes
Os outros sintomas, quando existem, apontam uma direção — apenas apontam, o diagnóstico não se faz com eles.
- Uma infeção urinária. Ardor ao urinar, vontade frequente, sensação de não esvaziar por completo, urina turva e de cheiro forte. Se se juntarem febre alta, arrepios e dor lombar, a infeção subiu ao rim, e isso já é urgente;
- um cálculo. Dor intensa e em ondas no flanco, que desce para a virilha; a pessoa não encontra posição que alivie e costuma ter náuseas. A pedra raspa a parede do ureter, e é daí que vem o sangue;
- a próstata aumentada. Nos homens mais velhos: jato fraco, necessidade de fazer força, atraso no início da micção, levantar-se de noite para urinar;
- um traumatismo. Uma pancada na zona lombar ou no abdómen, uma queda, um acidente: o sangue pode surgir horas depois;
- o esforço físico. Depois de uma corrida longa ou de um treino pesado a urina por vezes escurece, e isso resolve-se num ou dois dias. É a única causa inocente da lista, mas confirmá-la a posteriori só é possível de uma forma, repetindo a análise após o repouso: se o sangue continuar lá, o esforço não era a explicação;
- doenças do próprio rim, como a inflamação dos glomérulos renais. Urina cor de cola, inchaço debaixo dos olhos e nas pernas, tensão alta e, na análise, muita proteína juntamente com o sangue;
- com menos frequência, quistos e variantes congénitas do rim, alterações da coagulação, doenças hereditárias do sangue e, em quem se banhou em águas doces de África, uma infeção parasitária da bexiga.
O sangue que só se vê na análise
Acontece também o contrário: a urina parece normal e na análise aparecem glóbulos vermelhos. Chama-se a isto sangue oculto na urina, e costuma descobrir-se por acaso, num check-up, antes de uma cirurgia ou em exames feitos por outro motivo.
A preocupação aqui é menor do que perante sangue visível, mas não é nula. Primeiro repete-se a análise: um achado isolado pode seguir-se a um esforço, à menstruação, a febre ou a uma algália. Se o sangue se mantiver, o médico vê se há também proteína na urina, se a função renal está alterada e se a tensão está alta; esse conjunto aponta para doença renal e leva ao nefrologista. Se não houver proteína mas existirem fatores de risco — a idade, o tabaco, o trabalho com corantes, borrachas e solventes —, as vias urinárias são estudadas tal como perante sangue visível.
Quando é preciso ajuda urgente
Chame uma ambulância (em Espanha, Itália, Portugal, Polónia e Ucrânia o número único é o 112) se:
- houver coágulos na urina e não conseguir urinar: um coágulo tapou a saída, a bexiga está cheia e dolorosa. É uma urgência e resolve-se no hospital com uma algália;
- a hemorragia for abundante e houver fraqueza, tonturas, palidez, suores frios ou coração acelerado, sinais de perda de sangue;
- o sangue tiver surgido depois de uma pancada forte na zona lombar ou no abdómen, depois de uma queda ou de um acidente;
- juntamente com o sangue houver febre alta com arrepios, dor lombar e confusão: é assim que se apresenta uma infeção do rim a evoluir para uma infeção generalizada.
Deve procurar-se ajuda no próprio dia, sem esperar por consulta marcada, se o sangue vier acompanhado de febre, dor lombar ou no flanco, se conseguir urinar mas com dificuldade, ou se tomar medicamentos que tornam o sangue mais fluido. Nos restantes casos, consulta marcada — mas consulta, não vigilância em casa.
Como se investiga
A investigação vai do simples para o complexo, e os primeiros passos são rápidos:
- análise de urina, que confirma que é mesmo sangue e mostra proteína, leucócitos e outros vestígios; a urocultura acrescenta-se se houver suspeita de infeção;
- análises de sangue: hemograma, função renal e, se necessário, coagulação. Nos homens acrescenta-se o PSA conforme a idade e os sintomas;
- medição da tensão arterial, que é ao mesmo tempo causa e consequência das doenças renais;
- ecografia dos rins e da bexiga e, perante sangue visível, muitas vezes também uma tomografia computorizada com contraste, que mostra rins e ureteres com mais detalhe;
- a observação da bexiga por dentro com um instrumento fino e flexível. Faz-se com anestesia local e demora poucos minutos; é a única forma de ver a mucosa da bexiga, porque os tumores iniciais aí não se veem nas imagens.
Se for encontrada uma infeção e tratada, a análise de urina repete-se no fim do tratamento. O sangue que persiste depois de a infeção estar curada obriga a continuar a investigar, e não a repetir o tratamento. Também não convém começar antibióticos por iniciativa própria com uma receita antiga: aliviam os sintomas, o sangue passa despercebido e perde-se tempo.
O que acontece quando a causa é encontrada
Não existe tratamento «para o sangue na urina»: trata-se aquilo que o provocou. A infeção é tratada com antibióticos escolhidos conforme o agente. Os cálculos pequenos saem sozinhos com muitos líquidos e analgesia; os grandes são fragmentados ou removidos. Na próstata aumentada há medicamentos que reduzem o seu volume e facilitam a saída da urina, e se não chegarem propõe-se cirurgia. As doenças renais são seguidas pelo nefrologista, e aí o primeiro lugar cabe ao controlo da tensão e da proteína na urina.
Se a investigação não encontrar nada — e esse é um desfecho frequente —, não se recebe alta definitiva. O habitual é repetir a análise de urina passados alguns meses e pedir que volte de imediato se o sangue reaparecer. Não é excesso de zelo: parte dos achados só se torna visível à segunda.
Consulta em linha
Na consulta em linha o médico analisa a situação a fundo: de que cor estava a urina, se o sangue surgia no início ou no fim da micção, se havia coágulos, o que comeu e que medicamentos toma, se há dor, febre ou algum traumatismo. Diz com clareza o que exige ambulância, o que exige ser visto hoje e com o que se pode marcar consulta sem pressa, e indica que análises vale a pena ter feitas antes de ir ao urologista, para não ir duas vezes. Lê os resultados e os exames de imagem que já tenha, explica o que significam os achados e ajuda a não perder de vista o essencial: o sangue que passou sozinho continua a precisar de explicação.
Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.




