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Os soluços são conhecidos de toda a gente e quase sempre passam sozinhos: uns minutos, por vezes meia hora, e a pessoa esquece-se de que os teve. É precisamente por serem tão inofensivos que vale a pena conhecer a outra metade do assunto. Soluços que não param durante um dia ou mais deixam de ser um incómodo doméstico e passam a ser um sintoma, e por vezes está por trás uma doença que a pessoa ainda desconhece. A fronteira entre estas duas histórias é o tempo, e convém saber onde passa.
Porque é que o diafragma perde o ritmo
O diafragma é o músculo plano que separa o tórax do abdómen e o principal motor da respiração. Os soluços começam quando esse músculo, juntamente com os músculos entre as costelas, se contrai de repente por sua conta. O ar entra de forma brusca, mas nesse mesmo instante a glote fecha-se: daí o som curto a que chamamos soluço.
Tudo isto é comandado por um arco reflexo: as fibras sensitivas do nervo frénico e do nervo vago sobem até ao tronco cerebral e regressam ao diafragma. Uma irritação em qualquer ponto desse circuito é capaz de o accionar. O arco é longo e atravessa o pescoço, o tórax e a parte alta do abdómen, e é por isso que a lista de causas possíveis é tão vasta: desde um gole de água fria até uma doença que aparentemente nada tem a ver com a respiração.
O que desencadeia os soluços comuns
Um episódio curto e caseiro costuma ter uma explicação simples ligada ao estômago e ao esófago, que ficam mesmo por baixo do diafragma e o tocam com facilidade.
- Comer demais ou depressa, sobretudo sem beber nada.
- As bebidas com gás e tudo o que faz engolir ar a mais: pastilha elástica, beber com palhinha, falar de boca cheia.
- Uma mudança brusca de temperatura por dentro, algo muito frio logo a seguir a algo quente.
- O álcool, em especial as bebidas fortes bebidas de uma vez.
- O tabaco.
- Os nervos, um susto, o riso, as emoções intensas e o próprio stresse.
Muitas vezes não se encontra causa nenhuma, e isso também é normal. Se os soluços duraram uns minutos e não voltaram, não há nada para procurar.
O que se pode experimentar em casa
Nenhum dos remédios caseiros tem provas sólidas a seu favor: os soluços passam sozinhos, e torna-se impossível saber se ajudou o truque ou se apenas chegou a hora. Ainda assim, quase todos são inofensivos e experimentar não custa nada. A ideia de fundo é sempre a mesma: subir por instantes o dióxido de carbono no sangue ou dar ao nervo vago outra coisa em que se ocupar.
- Beber água fresca devagar, em goles pequenos.
- Suster a respiração alguns segundos, com calma e sem forçar.
- Encostar os joelhos ao peito e inclinar-se para a frente.
- Engolir devagar uma colher de chá de açúcar ou um pedaço de limão.
- Fazer gargarejos suaves com água.
O que é melhor não fazer. Não respire para dentro de um saco: o conselho espalhou-se muito, mas assim não há forma de controlar quanto tempo se retém o ar, e em quem tem problemas de coração ou de pulmão a manobra não é segura. Não assuste de propósito quem está com soluços: o susto não cura e, numa pessoa idosa ou com doença cardíaca, é uma carga desnecessária. Não pressione os próprios globos oculares nem massaje um dos lados do pescoço: são manobras sobre o nervo vago e ninguém as deve fazer a si mesmo. As bebidas fortes, o vinagre e o picante não tiram os soluços e irritam ainda mais o esófago.
Os soluços no bebé e na criança pequena
Os bebés soluçam com frequência, por vezes várias vezes ao dia, e é quase sempre normal: o diafragma ainda é imaturo e durante a mamada o ar é engolido com facilidade. O bebé costuma estar tranquilo, come e dorme como sempre. O que ajuda não é um truque mas a forma de o alimentar: refeições mais pequenas, pausas, mantê-lo na vertical durante algum tempo depois de comer e verificar a pega na mama ou o furo da tetina.
Os remédios de adultos não se aplicam a crianças. A uma criança não se dão colheradas de açúcar, pedaços de limão, gelo nem qualquer alimento sólido «para os soluços»: há risco de engasgamento. Também não se lhe pede que suste a respiração nem que respire para dentro de um saco, e não se lhe prega um susto. O mel não se dá a crianças com menos de um ano em circunstância alguma.
Convém mostrar a criança ao médico se os soluços a impedirem de comer ou dormir, se vierem acompanhados de vómitos em jacto, choro durante as mamadas, fraco aumento de peso, tosse ou mudança de cor à volta dos lábios, ou se se repetirem durante longos períodos dia após dia. Nas crianças, por trás de soluços que não passam está quase sempre o refluxo.
Quando os soluços deixam de ser uma coisa banal
Soluços que duram mais de 48 horas são motivo para consultar o médico. É um limite convencional, mas aceite por todos: a partir daí os soluços consideram-se persistentes e passam a exigir explicação. Quando o episódio se prolonga por um mês ou mais fala-se de soluços intratáveis. Esses esgotam a sério: impedem de comer, de dormir e de falar, levam a perder peso e a um verdadeiro desgaste, e na grande maioria dos casos têm por trás uma causa concreta.
O que se encontra pode ser muito variado, porque o arco reflexo percorre meio corpo:
- refluxo, hérnia do hiato, inflamação ou estreitamento do esófago, úlcera do estômago;
- irritação do próprio diafragma ou dos órgãos vizinhos: pleurisia, pneumonia, abcesso por baixo do diafragma, pancreatite, doenças do fígado e da vesícula;
- tudo o que comprima o nervo frénico ou o vago no pescoço e no tórax: uma tiroide aumentada, gânglios aumentados de volume, um tumor do mediastino ou do pulmão, um aneurisma;
- lesões do tronco cerebral: acidente vascular cerebral, esclerose múltipla, um tumor, uma inflamação das meninges. O tronco cerebral é exactamente o ponto onde o reflexo se fecha, e é por isso que soluços persistentes podem ser um dos seus primeiros avisos;
- alterações metabólicas: insuficiência renal e urémia, diabetes descompensada, sódio ou potássio baixos no sangue;
- medicamentos: alguns corticóides e outras terapêuticas hormonais, fármacos da anestesia, parte dos antitumorais e dos sedativos.
Sinais com que não se pode esperar
Chame uma ambulância pelo número europeu único 112 se os soluços surgirem juntamente com fraqueza ou dormência súbitas num braço e numa perna, boca ao lado, fala arrastada, visão dupla, tonturas com perda de equilíbrio, dificuldade em engolir ou uma dor de cabeça violentíssima. Essa combinação aponta para o tronco cerebral e exige socorro imediato, não no dia seguinte.
Procure o médico no próprio dia se os soluços vierem com dor no peito ou no abdómen, falta de ar, vómitos ou febre, se o impedirem de comer e beber, ou se tiverem começado depois de uma operação recente.
O que o médico vai procurar
A primeira pergunta é há quanto tempo dura e o que aconteceu mesmo antes: um medicamento novo, uma operação, um traumatismo, uma crise de azia. O médico observa o abdómen, ausculta os pulmões e o coração, olha a garganta e o pescoço e testa os reflexos neurológicos. Daí em diante a extensão dos exames depende do que se encontrar: habitualmente análises com função renal e electrólitos, uma radiografia do tórax, endoscopia se a suspeita recair no esófago e no estômago, e imagem cerebral se o exame neurológico mostrar alguma coisa.
Trata-se sobretudo a causa: acertar o tratamento do refluxo, suspender ou trocar o fármaco responsável ou tratar uma pneumonia costuma fazer cessar também os soluços. Se a causa não for encontrada e os soluços estiverem a desgastar a pessoa, o médico pode prescrever um medicamento que actue sobre o próprio arco reflexo; para isso usam-se fármacos de vários grupos, entre eles antipsicóticos, antiepilépticos e procinéticos que aceleram o esvaziamento do estômago. Não resultam em toda a gente, escolhem-se caso a caso e são sempre indicados por um médico: não são tratamentos para iniciar por conta própria.
Consulta em linha
Os soluços são um daqueles temas em que ao médico interessa mais o relato do que o exame: quando começaram, o que se passou na véspera, que relação têm com as refeições e com a posição do corpo, que medicamentos toma. Tudo isso se discute com calma em linha. Na consulta, o médico da Oladoctor ajuda a perceber se o caso cabe no que é habitual, indica o que mudar na alimentação e na rotina se houver suspeita de refluxo, revê a lista dos medicamentos para excluir que algum seja o responsável e explica que exames fazem sentido e a que especialista recorrer a seguir. Se pelo que descrever o quadro exigir atendimento presencial urgente, ser-lhe-á dito com clareza.
Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.
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