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Esta página fornece informação geral e não substitui a consulta de um médico. Se os sintomas forem graves, persistentes ou estiverem a agravar-se, procure aconselhamento médico com urgência.

A frase «dói-me o ouvido» descreve pelo menos três doenças diferentes, e cada uma trata-se à sua maneira. Uma começa por fora, no canal auditivo, e quase sempre tem que ver com a água. Outra instala-se atrás do tímpano e costuma chegar depois de alguns dias de nariz a pingar: é a que acorda as crianças a meio da noite. A terceira envolve o ouvido interno, e a queixa principal não é a dor mas a sensação de que o mundo anda à roda. A maioria destas histórias resolve-se em poucos dias sem tratamento nenhum. Só que o ouvido tem uma particularidade incómoda: logo atrás dele começa o crânio, e as suas complicações raras avançam depressa. Segue-se como distinguir umas das outras e a partir de que momento deixa de fazer sentido esperar em casa.

Três andares do mesmo órgão

Perceber que andar está inflamado é possível ainda antes da observação médica, pelo que incomoda.

  • Ouvido externo. É a inflamação da pele do canal. O ouvido primeiro faz comichão, depois começa a doer, e a dor aumenta bruscamente se se puxar o lóbulo ou se se carregar na saliência à entrada. A audição fica abafada por causa do inchaço e pode sair alguma secreção. A causa é a água que ficou lá dentro depois da piscina, o hábito de limpar os ouvidos com cotonetes, os auriculares de encaixe, o eczema ou a psoríase. O micróbio chega em segundo lugar, sobre uma pele já danificada.
  • Ouvido médio. É a cavidade atrás do tímpano. Ventila-se pela trompa de Eustáquio, que desemboca atrás do nariz; com uma constipação a trompa incha e deixa de funcionar, acumula-se líquido na cavidade e a infeção sobe a partir do nariz. Daí a ordem dos acontecimentos: primeiro dois ou três dias de constipação, depois a dor noturna. Puxar a orelha não dói, porque a dor é lá no fundo.
  • Ouvido interno. Aqui ficam a cóclea e o órgão do equilíbrio. A inflamação não dá dor mas sim tonturas fortes com náuseas, por vezes zumbido e perda de audição de um lado. Quase sempre é vírica, e dura mais tempo: dias e semanas, com melhoria gradual.

Como se apresenta nas crianças

Uma criança com menos de dois ou três anos não diz que lhe dói o ouvido. A trompa de Eustáquio é nela mais curta e mais horizontal, por isso o ouvido médio inflama-se com muito mais facilidade do que no adulto. Devem dar que pensar:

  • um choro que piora ao deitar a criança e acalma ao pô-la ao colo, direita;
  • uma mão que volta vezes sem conta à mesma orelha;
  • a recusa da mama ou do biberão, porque sugar manda dor para o ouvido;
  • febre e uma noite agitada ao terceiro ou quarto dia de uma constipação vulgar;
  • uma criança que sossega de repente: dormia mal e de súbito acalmou, e na almofada apareceu uma mancha amarelada. É o tímpano que se perfurou, a pressão desceu e a dor foi com ela. Assusta, mas o orifício fecha quase sempre sozinho ao fim de duas semanas.

Há ainda um capítulo que não dói nada: o silêncio. Se depois de uma otite a criança começa a perguntar «o quê?», a subir o volume dos desenhos animados e a responder pior ao próprio nome, pode haver líquido parado atrás do tímpano há meses. Não dói e por isso escapa, e para a linguagem naquela idade alguns meses de audição abafada são muito tempo. É motivo para mandar avaliar a audição e não para continuar à espera.

O que fazer nos primeiros dias

Se de resto a pessoa está bem e o único problema é o ouvido, os primeiros dois ou três dias são em regra de vigilância.

  • O analgésico não se toma «quando já não se aguenta», mas logo de início e a horas certas no primeiro dia: é ele que resolve a dor, e não as gotas nem o antibiótico. Servem os medicamentos comuns sem receita; qual escolher no seu caso ou no da criança di-lo o médico de família ou o farmacêutico. A crianças e adolescentes não se dá aspirina.
  • O calor seco sobre a orelha alivia muita gente. O saco deve estar morno e não quente, e não se usa se o ouvido estiver a supurar.
  • É melhor dormir meio sentado, com duas almofadas: deitado por completo a dor é sempre pior.
  • O ouvido tem de ficar seco. Para o duche, uma bola de algodão com vaselina à entrada do canal; a piscina fica adiada até à cura.
  • A secreção limpa-se com cuidado por fora, com algodão. Lá dentro não se mete nada: nem cotonetes, nem o dedo, nem gaze enrolada.
  • Os descongestionantes nasais e os anti-histamínicos não fazem nada na otite: foi testado e não se confirma. Podem secar o nariz, mas ao ouvido não chegam.
  • Pôr gotas num ouvido que ninguém observou é má ideia, sobretudo se estiver a supurar. Alguns preparados não podem entrar por um tímpano perfurado, e de fora não há maneira de saber se ele está inteiro.

Quando deixar de esperar em casa

Vale a pena ser observado num dia ou dois se a dor não cede ao terceiro dia, se o ouvido começou a supurar, se se trata de um bebé com menos de um ano, se a febre se mantém apesar do antipirético ou se as otites se repetem sem parar. À parte ficam as pessoas com diabetes, com imunidade diminuída ou a fazer quimioterapia: nelas a otite externa comporta-se de outro modo e é levada a sério desde o início.

Já com estes sinais fala-se de urgência, e não se espera pela manhã:

  • a pele atrás da orelha ficou vermelha, quente e inchada, e a própria orelha parece empurrada para a frente: é assim que se apresenta a passagem da infeção à mastoide, o osso atrás do ouvido;
  • a cara ficou torta: o olho não fecha, a sobrancelha não sobe, o canto da boca desce do lado do ouvido doente;
  • dor de cabeça forte com vómitos, rigidez da nuca, sonolência, confusão, convulsões, incómodo com a luz, manchas na pele que não empalidecem ao carregar com um copo transparente;
  • tonturas súbitas e violentas com vómitos que impedem de estar de pé, sobretudo a par de perda de audição;
  • a audição desaparece de repente, em minutos ou horas, de um só lado e sem dor. Não é rolhão de cera nem apanhar frio: a surdez súbita tem uma janela estreita em que o tratamento resulta, e conta-se em dias;
  • dor de ouvido que não deixa dormir e que os analgésicos não controlam, em quem tem diabetes ou defesas baixas: é uma forma rara mas perigosa de otite externa que se estende ao osso da base do crânio;
  • num bebé de poucos meses, febre acima dos 38 graus, prostração, recusa alimentar, um choro monótono e diferente do habitual.

Nessas situações liga-se para uma ambulância; nos países europeus o número único é o 112.

Com que se trata realmente

A abordagem depende do andar envolvido, e a diferença é de fundo.

Na otite externa o essencial é o tratamento local: o médico limpa o canal e prescreve gotas antibacterianas, antifúngicas ou com corticoide, consoante o que observou. Os antibióticos em comprimidos aqui não costumam ser precisos, porque chegam pior à pele do canal do que uma gota que cai diretamente sobre ela. As gotas só resultam se de facto chegarem ao fundo: deitar-se de lado com o ouvido doente para cima, instilar, puxar suavemente a orelha para trás e para cima para o canal endireitar, e ficar deitado uns minutos. Metade das gotas «que não funcionam» escorreu simplesmente para fora ao fim de trinta segundos.

Na otite média o antibiótico está longe de ser sempre necessário. Na maioria das crianças com mais de dois anos, com febre baixa e dor moderada, tudo passa sozinho, e a atitude sensata é analgesia com reavaliação ao fim de quarenta e oito horas. O antibiótico dá-se logo se o ouvido supura, se numa criança pequena estão afetados os dois ouvidos, se a criança é muito pequena, se o estado geral é mau ou se há fatores de risco. São em regra penicilinas e, havendo alergia, outras famílias; o ciclo leva-se até ao fim mesmo que a dor tenha passado ao segundo dia.

Na inflamação do ouvido interno o antibiótico não acrescenta nada, porque a causa é vírica. Tratam-se as tonturas e as náuseas, e depois o cérebro recalibra-se sozinho para o sinal alterado: nisso ajuda o movimento e não o repouso. Ao andar normal regressa-se mais cedo do que apetece.

Um furúnculo no canal é drenado pelo médico se for preciso. Se o líquido atrás do tímpano está parado há meses e impede uma criança de ouvir, pondera-se um pequeno tubo de ventilação que areje a cavidade até a trompa voltar a trabalhar por si.

O que reduz as recaídas

Evitá-las por completo não é possível: metade das otites começa com uma constipação banal. Mas algumas coisas mudam mesmo a frequência.

  • O fumo do tabaco em casa é um dos fatores mais bem demonstrados. Fumar à janela ou na varanda não resolve: o fumo fica na roupa e no ar do quarto.
  • As vacinas previstas para a idade, sobretudo a do pneumococo e a da gripe, reduzem de forma apreciável o número de episódios.
  • O aleitamento materno nos primeiros meses baixa o risco; dar o biberão com o bebé deitado de costas não ajuda.
  • A chupeta vai-se retirando aos poucos a partir do primeiro semestre: nas otites de repetição é uma das poucas coisas que os pais podem mudar por si.
  • Os cotonetes não se usam de todo. Não limpam o ouvido: empurram a cera para dentro e arranham a pele, e é por aí que entra a infeção.
  • A quem nada ajudam os tampões ou uma touca que cubra as orelhas, e o hábito de inclinar a cabeça ao sair da água para o canal esvaziar.
  • O eczema, a psoríase e a alergia ao molde do aparelho auditivo têm de ser tratados: a pele inflamada do canal infeta-se com mais facilidade.

Consulta em linha

À distância resolve-se a pergunta central do primeiro dia: vigiar em casa ou ir mostrar o ouvido. O médico revê como tudo começou, se houve constipação antes, se dói tocar na orelha por fora, se há secreção e febre, indica com que aliviar a dor de uma criança e em que dose conforme o peso, e nomeia os sinais perante os quais já não se espera. É também uma forma prática de decidir o que fazer a um ouvido que continua a ouvir pior um mês depois da otite, ou a ouvidos que inflamam várias vezes por ano. Os sinais urgentes da lista anterior não se avaliam através de um ecrã: com esses vai-se diretamente às urgências.

Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.

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Andreea Mateescu

Pediatria8 anos de experiência

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O Dr. Pedro Soares Lopes é médico e tem quatro anos de experiência, sobretudo em serviços de urgência e emergência. Trabalhou nos HUC, na ULSRA, no Hospital da Luz de Aveiro e na ARS Açores, onde avaliou uma grande variedade de situações médicas e cirúrgicas, desde casos simples a situações complexas que exigem uma avaliação cuidadosa.

A experiência em serviços de urgência permitiu-lhe acompanhar pacientes de diferentes idades, incluindo grávidas. Este percurso clínico abrangente ajuda-o a avaliar sintomas, a identificar quando poderá ser necessária uma investigação adicional e a explicar os passos seguintes.

O Dr. Soares Lopes tem também experiência em consultas ao domicílio e em consultas de medicina do viajante. Sabe que os problemas de saúde podem surgir quando uma pessoa está longe do seu médico habitual ou não sabe a que serviço recorrer. Além disso, trabalhou cerca de um ano na área da saúde ocupacional nos Países Baixos, o que acrescentou uma perspetiva internacional à sua prática clínica.

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