Sensibilidade ao ruído (hiperacusia)
A hiperacusia é uma tolerância reduzida ao volume normal dos sons. Ruídos que os outros nem sequer registam surgem estridentes, ensurdecedores e por vezes…
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A hiperacusia é uma tolerância reduzida ao volume normal dos sons. Ruídos que os outros nem sequer registam surgem estridentes, ensurdecedores e por vezes dolorosos: a loiça no lava-loiça, a água da torneira, uma cadeira arrastada no chão, o riso de uma criança, o roçar de um saco. A audição pode estar perfeitamente normal, porque o que falha não é a receção do som mas a sua avaliação: o sistema encarregado de decidir quão alto soou algo começou a inflacionar todos os valores. É uma situação tratável e, quanto mais cedo for abordada, menos tempo tem para reorganizar a vida de quem a sofre.
Como se vive por dentro
Cada pessoa descreve-a à sua maneira, e essas diferenças contam na altura de escolher a ajuda. Para uns o som é simplesmente demasiado alto: uma conversa num café soa a gritaria. Para outros traduz-se em dor física dentro do ouvido — em picada, em ardor ou em repuxão — que ainda permanece horas depois de a fonte se ter calado. Há ainda quem se queixe menos do volume do que do carácter insuportável do ruído: acende de imediato uma irritação e a vontade de sair dali.
A lista habitual de gatilhos é bem banal: os talheres contra o prato, um cão a ladrar, o aspirador, um motor a trabalhar, alguém a mastigar, o apito do micro-ondas, o burburinho de um centro comercial. A sensibilidade pode afetar um ouvido ou os dois, pode aparecer de um dia para o outro depois de um acontecimento ruidoso ou instalar-se ao longo de meses de forma tão discreta que ninguém sabe apontar o início.
A seguir começa quase sempre um segundo círculo de problemas. Deixa-se o cinema e as refeições com gente, deixa-se de conduzir, trabalha-se com auscultadores, evitam-se os encontros. Instala-se um estado de alerta permanente: o ouvido prepara-se de antemão para a pancada do som. Esse alerta sobe por si só a sensibilidade, formando-se um ciclo que tem de ser quebrado à parte do tratamento da causa.
Quadros parecidos que se tratam de outra maneira
Distingui-los não é uma formalidade: os meios de ajuda são diferentes em cada caso.
- Misofonia. O que incomoda não é o volume mas um som concreto: a mastigação, um fungar, o clique de uma esferográfica, o teclado. Alguém a mastigar baixinho ao lado é intolerável; música alta, não. A reação é mais de raiva e nojo do que de dor.
- Fonofobia. Aqui domina o medo do som e a sua antecipação. Acompanha muitas vezes a enxaqueca, as perturbações de ansiedade e os quadros posteriores a um traumatismo craniano ligeiro.
- Recrutamento da sonoridade. Surge quando há perda auditiva: a fala baixa não se ouve e tem de ser repetida, mas mal o interlocutor levanta um pouco a voz o som torna-se insuportável. Entre o «não te ouço» e o «demasiado alto» quase não fica espaço. O que ajuda não é descansar dos ruídos, é um aparelho auditivo bem regulado.
- Acufenos. Andam com frequência de mãos dadas com a hiperacusia e não raras vezes são eles que levam a pessoa ao médico. Habitualmente resolvem-se os dois em conjunto.
Porque muda a tolerância ao som
A hiperacusia não tem uma causa única. Às vezes aparece sozinha, sem motivo aparente, mas o mais frequente é haver por trás algo desta lista.
- traumatismo acústico: um tiro, um foguete, uma explosão, um concerto encostado à coluna, o trabalho com ferramenta ruidosa sem proteção;
- um traumatismo craniano, caso em que a sensibilidade costuma vir com dores de cabeça e cansaço;
- a doença de Ménière e outras doenças do ouvido interno;
- a paralisia do nervo facial: o músculo que amortece os sons fortes no ouvido médio deixa de trabalhar e aquele ouvido fica sem defesa;
- uma infeção de ouvido anterior, o herpes zóster com envolvimento auricular, a doença de Lyme;
- a enxaqueca, durante as crises e entre elas;
- características do desenvolvimento do sistema nervoso: perturbações do espetro do autismo, síndrome de Williams;
- ansiedade prolongada, depressão, esgotamento após uma doença pesada;
- a suspensão de alguns sedativos e o uso de medicamentos que afetam o ouvido.
Uma causa rara merece parágrafo próprio. A intolerância súbita ao som pode surgir na insuficiência suprarrenal, uma doença hormonal pouco comum e perigosa precisamente porque avança sem dar nas vistas. O que deve alertar é a combinação: audição afiada em conjunto com fraqueza crescente, perda de peso, apetência pelo sal, tonturas ao pôr-se de pé e escurecimento da pele nos cotovelos, nas pregas das mãos e nas cicatrizes antigas. Perante esse conjunto o que se impõe são análises, não uns auscultadores melhores.
Quando ser observado sem adiar
A sensibilidade ao ruído por si só não é urgente, mas há combinações que se estudam nos dias seguintes e não quando houver vaga.
- a audição de um ouvido caiu de repente em horas ou num dia: a surdez súbita responde tanto melhor quanto mais cedo for tratada, e a margem conta-se em dias;
- a sensibilidade chegou acompanhada de desvio da face, impossibilidade de fechar o olho, lesões no pavilhão auricular ou dor forte de ouvido;
- vem com vertigem intensa e vómitos ou com instabilidade a andar;
- afeta apenas um ouvido e não passa: um problema unilateral persistente estuda-se sempre com mais atenção do que um bilateral;
- tudo começou logo a seguir a uma pancada na cabeça, a um mergulho ou a um voo;
- ouvem-se dentro da cabeça a própria voz, os próprios passos ou o movimento dos olhos, sinal de uma anomalia rara do osso temporal que só se encontra procurando-a de propósito.
O que faz o médico na consulta
A conversa começa por pormenores que parecem menores e na verdade orientam o diagnóstico: que sons exatamente incomodam, quanto dura a sensação desagradável, se há dor, se é um ouvido ou os dois, o que se passava mesmo antes de tudo começar.
Depois examina-se a audição. A audiometria habitual diz se existe perda, e junta-se-lhe a medição do nível a partir do qual o som se torna incómodo: é esse valor que descreve a hiperacusia propriamente dita e que permite depois seguir a melhoria de forma objetiva e não por sensações. Observa-se o tímpano, avalia-se a mobilidade da cadeia de ossículos e o reflexo protetor do ouvido médio. Se as queixas forem de um só lado, se houver vertigem ou se se suspeitar de uma anomalia do osso temporal, pede-se uma TAC ou uma ressonância magnética.
Pergunta-se à parte por acufenos, enxaqueca, ansiedade e perturbações do sono: alteram o plano de ajuda mais do que parece.
Com que se ajuda
Se a causa for encontrada, trata-se ela: a enxaqueca, a infeção, a doença do ouvido interno, a alteração hormonal. Muitas vezes a sensibilidade vai-se embora com ela.
Quando não há causa evidente, trabalha-se a própria tolerância. A base é a terapia sonora: manter ao longo do dia um som de fundo baixo, uniforme e sem interesse nenhum, cujo volume se sobe muito devagar, ao longo de semanas. A ideia é que o sistema auditivo volte a habituar-se à gama comum. Por vezes recorre-se a geradores de ruído colocados no ouvido, outras vezes basta o som ambiente da casa. Graduar o nível é tarefa do especialista: avançar depressa de mais provoca recuos.
O segundo pilar é o trabalho sobre a reação ao som. A terapia cognitivo-comportamental desmonta os pensamentos que disparam a tensão e devolve a pouco e pouco a pessoa às situações que andava a evitar. É o método com provas mais sólidas quando a hiperacusia aparece junto com acufenos. Havendo ansiedade marcada ou insónia, o médico pode acrescentar apoio farmacológico, mas este serve o trabalho principal em vez de o substituir.
Se houver também perda auditiva, uma tarefa à parte é um aparelho auditivo bem regulado e com limitação dos picos de volume: sem ele o sistema auditivo fica no silêncio e a sensibilidade consolida-se.
O que se pode fazer sozinho
- não fique em silêncio absoluto: uma audição sem trabalho afina-se ainda mais;
- mantenha em casa um fundo sonoro suave e constante — uma ventoinha, música calma sem saltos bruscos, uma gravação de chuva;
- regresse aos sítios ruidosos por passos pequenos: dez minutos num café tranquilo antes de um concerto, e não ao contrário;
- aprenda uma forma rápida de baixar a tensão; a respiração lenta com a expiração alongada funciona numa fila e no autocarro;
- trate do sono: quem dormiu mal tolera o ruído bastante pior;
- avise a família e os colegas de que não é feitio, e combine coisas simples: fechar a porta, baixar o volume, não ligar aparelhos de repente.
O erro principal são os tampões e os auscultadores com cancelamento de ruído usados a toda a hora. Trazê-los o dia inteiro parece sensato, mas o resultado é o oposto: quanto mais alguém se fecha ao som, mais baixo desce o limiar, e ao fim de alguns meses torna-se insuportável aquilo que antes não incomodava. A proteção serve onde o ruído faz mesmo mal: uma obra, uma ferramenta elétrica, um concerto, uma carreira de tiro. Na vida corrente tira-se.
Sensibilidade ao ruído nas crianças
As crianças pequenas assustam-se com o barulho mais do que os adultos e tapam os ouvidos com as mãos; costuma ser próprio da idade e passa. Vale a pena olhar melhor quando a criança evita o refeitório, as brincadeiras ruidosas ou as festas, se sobressalta com sons domésticos, começou a falar pior ou deixou de responder ao próprio nome.
Depois de uma otite a audição verifica-se à parte: por trás de um «soa demasiado alto» está por vezes líquido parado atrás do tímpano. Nas crianças com perturbações do espetro do autismo a intolerância ao ruído é frequente e pede não o isolamento dos sons mas uma habituação gradual, anunciada com antecedência, num ambiente previsível. Também aqui não convém permitir os auscultadores durante todo o dia, pela mesma razão que nos adultos.
Consulta em linha
Na consulta em linha o médico percorre que sons incomodam e de que maneira, apura o que se passava antes de tudo começar, se existem acufenos, vertigem ou perda de audição, e observa a audiometria que já tenha sido feita. Isso basta para separar a hiperacusia da misofonia e de uma perda auditiva, para decidir se é preciso que um otorrinolaringologista observe a pessoa sem demora e para traçar os primeiros passos da terapia sonora sem esperar pela vez dos exames.
Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.
Médicos online para Sensibilidade ao ruído (hiperacusia)
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