Vomitar sangue
Sangue no vómito significa que em algum ponto do tubo digestivo superior — o esófago, o estômago ou o início do duodeno — existe um foco que sangra.
Nesta página
Sangue no vómito significa que em algum ponto do tubo digestivo superior — o esófago, o estômago ou o início do duodeno — existe um foco que sangra. Enquanto não se provar o contrário, é assim que se interpreta, e aqui não se pode esperar nem uma hora. Uma hemorragia para sozinha; outra retira em poucos minutos um volume de sangue perigoso, e no primeiro episódio as duas não se distinguem. Por isso a regra principal vem primeiro e não admite exceções: vomitar sangue é motivo para chamar uma ambulância, não para ficar a observar.
É uma ambulância, não uma vigilância em casa
Chame uma ambulância de imediato. O número europeu único 112 funciona em Espanha, Itália, Portugal, Polónia e Ucrânia; onde vigore outro número local de emergência, ligue para esse.
Ainda mais urgente se surgir alguma destas coisas:
- o sangue é abundante — a boca cheia, várias colheres, uma bacia, ou o vómito com sangue repete-se;
- fraqueza, tonturas, vista que escurece, sobretudo ao sentar-se ou ao pôr-se de pé;
- palidez, pele fria e húmida, suor pegajoso;
- pulso rápido, respiração rápida ou superficial;
- confusão, sonolência, perda de consciência;
- dor forte no abdómen ou dor no peito;
- fezes negras e alcatroadas por si só, mesmo sem vómito;
- a pessoa toma medicamentos que tornam o sangue mais fluido ou tem uma doença do fígado.
Não conduza. Peça que o levem ou espere pela ambulância: com perda de sangue pode perder-se a consciência a caminho. Se quem vomita sangue é uma criança, uma grávida, uma pessoa idosa ou alguém que já teve uma úlcera ou uma cirrose, peça ajuda sem hesitar.
Que aspeto tem o sangue e o que isso indica
O aspeto sugere se a hemorragia é recente, mas em nenhum caso dispensa o pedido de ajuda.
- Sangue vermelho vivo e fresco, às vezes com coágulos: a hemorragia está a acontecer agora e é habitualmente abundante. É assim a rotura das veias dilatadas do esófago e a úlcera que abriu um vaso.
- Uma massa acastanhada semelhante a borras de café: o sangue permaneceu no estômago e o ácido transformou-o. Aponta para uma hemorragia que começou antes ou que avança lentamente. Isso não a torna inofensiva: as borras de café precedem muitas vezes um episódio abundante.
- Riscos de sangue depois de vomitar muitas vezes: é a variante menos temível, mas também precisa de ser vista, porque distinguir uma laceração superficial de uma úlcera só é possível com o olhar do médico.
As fezes negras e alcatroadas — pegajosas, brilhantes, de odor intenso — são a mesma hemorragia, só que o sangue atravessou o intestino. Podem ser o único sinal mesmo quando não houve vómito nenhum, e merecem a mesma urgência. Não as confunda com o simples escurecimento das fezes provocado por suplementos de ferro, carvão ativado, mirtilos ou beterraba: aí não há aquela consistência pegajosa, nem o odor, nem mal-estar geral.
Tente recordar ou fotografar o que foi expelido e calcular o volume em colheres ou copos. Ao médico isso diz mais do que uma descrição por palavras.
O que fazer e o que não fazer até chegar a ajuda
Deite a pessoa de lado, para que o sangue e o vómito não passem para as vias respiratórias. Se estiver consciente e se sentir melhor meio sentada, deixe-a assim.
- Não comer nem beber, incluindo água. Pode ser necessário um exame urgente do esófago e do estômago por dentro, e faz-se com o estômago vazio; a água, além disso, provoca novos vómitos.
- Não tomar analgésicos. Os anti-inflamatórios e a aspirina lesam a mucosa e agravam a hemorragia — com frequência são precisamente a sua causa.
- Não suspender por iniciativa própria os medicamentos que tornam o sangue mais fluido nem alterar a dose. Suspendê-los é uma decisão do médico e às vezes é perigosa em si mesma. Mas há que dizer logo que estão a ser tomados e indicar quais são.
- Não provocar o vómito nem fazer lavagens do estômago em casa.
- Nada de álcool e nenhum remédio «para o estômago» dado por conta própria.
Reúna as embalagens de todos os medicamentos que a pessoa toma, incluindo os comprados sem receita, e as cartas de alta se existirem. Isso acelera a decisão do médico.
De onde vem a hemorragia
A causa estabelece-se no hospital, mas conhecer as principais explica porque há tanta pressa.
- Úlcera do estômago ou do duodeno: a causa mais frequente. Pode ter sido precedida de dor na parte alta do abdómen em jejum ou de noite, embora não seja raro que a primeira manifestação da úlcera seja justamente a hemorragia.
- Lesão da mucosa por medicamentos. Os analgésicos anti-inflamatórios e a aspirina, tomados durante muito tempo, produzem erosões e úlceras, muitas vezes sem dor nenhuma. O risco é maior se se combinarem com corticoides, com anticoagulantes ou entre si.
- Veias dilatadas do esófago na doença do fígado: a situação mais perigosa. Na cirrose o sangue passa mal pelo fígado e sobrecarrega as veias de parede fina do esófago e do estômago; quando uma delas rompe, a hemorragia pode ser fulminante. O que faz pensar nisto: uma hepatite passada, anos de abuso de álcool, cor amarela da pele e do branco dos olhos, abdómen aumentado, equimoses sem motivo.
- Laceração da mucosa do esófago por vómitos intensos. A história clássica: várias horas de vómitos persistentes e depois surgem riscos ou vestígios de sangue. Essa laceração costuma fechar sozinha, mas o diagnóstico só se faz depois de olhar.
- Inflamação da mucosa do estômago e do esófago por refluxo grave ou pelo álcool.
- Tumor do estômago ou do esófago. Menos frequente, mas é o primeiro pensamento se a pessoa não é jovem e há perda de peso, falta de apetite persistente, dificuldade em a comida descer, sensação de ficar cheio de imediato.
- Alterações da coagulação, congénitas ou provocadas por medicamentos e pela doença do fígado.
O que se confunde com vomitar sangue
Às vezes o alarme acaba por ser infundado. Não é motivo para o averiguar em casa, mas há que contá-lo ao médico.
- Sangue engolido vindo do nariz. Quando a hemorragia nasce na parte de trás do nariz, o sangue escorre pela garganta, acumula-se no estômago e depois sai com o vómito. Pistas: também saía sangue pela narina, houve há pouco uma pancada no nariz ou ar muito seco, sente-se o escorrer atrás da garganta.
- Sangue depois de uma intervenção dentária, ou da gengiva, de uma ferida na boca, da língua mordida; e num lactente, o sangue de uma fissura do mamilo da mãe.
- Sangue da garganta após uma operação às amígdalas.
- Alimentos e bebidas que tingem: beterraba, sumo de uva tinta, vinho, romã, concentrado de tomate, gelatinas e bebidas com corantes vermelhos; o chocolate e o café parecem borras de café.
Nenhuma destas possibilidades se confirma em casa se o sangue for visível. Enquanto a origem não for encontrada, age-se como numa hemorragia do estômago.
Quando o sangue sai a tossir e não com o vómito
É o outro quadro que mais se confunde com vomitar sangue: a tosse com sangue. Aí o sangue vem das vias respiratórias, e as doenças, a abordagem e a urgência são outras. A diferença costuma ver-se por alguns traços.
- O que precede o sangue. Na tosse com sangue, a tosse, uma comichão ou um borbulhar no peito. Na hemorragia do estômago, náuseas, esforços para vomitar e o próprio esforço do vómito.
- O aspeto do sangue. O sangue tossido é vermelho vivo e espumoso e vem misturado com expetoração. O do estômago é escuro, acastanhado, não faz espuma e pode conter restos de comida.
- O que o acompanha. A tosse com sangue vem com falta de ar, dor no peito ao inspirar, febre, uma tosse que se arrasta. A hemorragia no estômago vem com dor na parte alta do abdómen, fezes negras e alcatroadas e sinais de doença do fígado.
Os dois quadros, quando o sangue é abundante, exigem uma ambulância, pelo que no momento urgente não vale a pena distingui-los: peça ajuda e diga ao médico se o sangue saiu a tossir ou foi vomitado. Diferenciá-los importa depois, porque disso depende se serão examinados os pulmões ou o esófago e o estômago. Temos uma página à parte sobre a tosse com sangue, onde a mesma distinção é descrita do lado das vias respiratórias.
Como se investiga e se trata
No hospital a primeira tarefa é avaliar quanto sangue se perdeu: tensão arterial, pulso, análises da hemoglobina e da coagulação, grupo sanguíneo. Coloca-se um acesso venoso e, se a perda for grande, transfundem-se componentes do sangue. Logo de início dão-se medicamentos que reduzem a acidez e, havendo suspeita de veias dilatadas do esófago, acrescentam-se os que baixam a pressão dentro delas.
O exame principal é a gastroscopia: a observação do esófago, do estômago e do duodeno com um instrumento fino e flexível. Faz-se com urgência, normalmente nas primeiras horas depois de a pessoa estar estável. Não se limita a encontrar o foco: permite parar a hemorragia no próprio momento, fechando o vaso com um clipe, injetando em volta, cauterizando-o, ou laqueando a veia dilatada com uma banda elástica. Se assim não se conseguir, restam o fecho do vaso através de cateter e a cirurgia.
Depois trata-se a causa: cura-se a úlcera e, se se encontrar a bactéria Helicobacter pylori, faz-se um ciclo para a eliminar; revêem-se os analgésicos; na doença do fígado prescrevem-se medicamentos que previnem nova rotura das veias e marcam-se consultas de seguimento. A hemorragia repete-se sobretudo onde a causa foi tratada a meio, por isso vale a pena terminar o tratamento indicado mesmo quando já se sente completamente bem.
Consulta em linha
Se há sangue no vómito ou houve, a consulta não substitui a chamada da ambulância e é por ela que se começa. A consulta em linha serve para outra coisa. Ajuda quando não é claro se era sangue ou um alimento que tinge, e quando se trata de riscos isolados depois de vomitar muitas vezes: pelo seu relato o médico deduz de onde vinha o sangue, pesa o risco à luz dos seus medicamentos e doenças e diz com clareza se deve ir agora ou marcar uma gastroscopia. Depois da alta do hospital ajuda a não ficar sozinho com os relatórios: explicar o resultado da gastroscopia, verificar que analgésicos lhe ficam permitidos e esclarecer quando e como se retomam os medicamentos que tornam o sangue mais fluido.
Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.




