Silicose
A silicose é a cicatrização do pulmão provocada por respirar poeira de sílica. A sílica é uma substância vulgar da crosta terrestre: existe na areia, no…
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A silicose é a cicatrização do pulmão provocada por respirar poeira de sílica. A sílica é uma substância vulgar da crosta terrestre: existe na areia, no arenito, no granito, no quartzo, no betão, no tijolo e na argamassa. Enquanto a pedra está inteira é inofensiva. Perigoso é trabalhá-la: ao cortar, polir, furar e britar gera-se uma poeira tão fina que fica invisível no ar, permanece horas em suspensão e chega ao mais fundo do pulmão. Aí o organismo tenta removê-la, não consegue e acaba por isolá-la com zonas de tecido cicatricial. A cicatriz não respira nem se reabsorve. Daí o essencial sobre esta doença: é irreversível, não existe tratamento que devolva os pulmões ao estado anterior, e todo o valor está na proteção e em afastar-se da poeira o mais cedo possível.
Onde se encontra esta poeira
O risco não é criado pela profissão em si, mas por trabalhar o material a seco e sem aspiração. Na maioria das vezes trata-se de:
- cortar, polir e lustrar pedra, sobretudo arenito e granito; canteiro e restauro;
- construção e demolição: abrir roços nas paredes, cortar betão e azulejo, furar, trabalhar com tijolo e argamassa;
- fabrico e montagem de bancadas de cozinha;
- decapagem por jato de areia — um dos trabalhos mais perigosos quando é feito a seco;
- atividade mineira, pedreiras, britagem de rocha, túneis;
- fundição: areias de moldação e desmoldagem de peças;
- cerâmica, porcelana, vidro, fabrico de abrasivos e refratários;
- bricolage: uma rebarbadora sobre betão ou azulejo numa divisão fechada e sem extração cria em poucas horas uma concentração que numa obra organizada não seria tolerada.
A poeira chega a casa na roupa e no cabelo, pelo que não é só quem trabalha que a respira. É melhor não lavar a roupa de trabalho junto com a de casa.
A pedra artificial: a doença em pessoas jovens em poucos anos
Merece capítulo à parte porque é um assunto recente e nos manuais de há poucos anos simplesmente não aparece. Falamos da pedra artificial para bancadas, placas feitas de granulado de quartzo ligado com resina. São muitas vezes escolhidas como substituto moderno do granito e, à vista, são um material vulgar. Mas contêm muito mais sílica do que a pedra natural, e ao cortá-las e poli-las a seco produz-se uma poeira extremamente fina e agressiva.
As consequências foram bruscas. Nos profissionais que cortam estas placas a silicose não surge ao fim de trinta anos, mas ao fim de poucos, e adoecem pessoas na casa dos trinta e dos quarenta. A evolução é também mais grave do que o habitual: a doença avança depressa, muitas vezes até ao ponto em que a única saída é o transplante de pulmão. Em vários países o trabalho a seco destas placas foi entretanto restringido ou proibido.
A conclusão é simples e prática. Se corta bancadas de pedra artificial, ou se o faz alguém próximo — sobretudo numa oficina pequena sem aspiração industrial —, parta do princípio de que o risco é elevado, mesmo sentindo-se perfeitamente bem e mesmo que só ande no ofício há um par de anos. Diga-o ao médico sem rodeios: sem essa frase, num jovem sem hábitos nocivos o diagnóstico pode andar a ser procurado durante anos e na direção errada.
Como a silicose se faz notar
Costuma avançar devagar e passar muito tempo sem se denunciar. Do início do trabalho com a poeira até às primeiras queixas passam dez a vinte anos com exposição moderada e cinco a dez com exposição forte; com exposição muito intensa, como na decapagem a seco ou no corte de pedra artificial, conta-se em meses e nos primeiros anos. Há ainda a particularidade inversa: a cicatrização continua depois de a pessoa ter deixado esse trabalho. Não ter queixas não significa que nos pulmões não esteja a acontecer nada.
O que aparece:
- tosse, seca ou com expetoração, que dura semanas e nada tem a ver com uma constipação;
- falta de ar. Ao princípio só a subir ladeiras ou escadas, depois a andar normalmente. É facílimo atribuí-la à idade, ao peso ou ao tabaco;
- fraqueza, cansaço rápido, menos resistência;
- dor ou aperto no peito, respiração sibilante;
- bronquites frequentes e que se arrastam.
À medida que progride, a falta de ar aumenta e começa a estorvar no dia a dia, e juntam-se complicações: pressão elevada nos vasos pulmonares com sobrecarga do lado direito do coração, insuficiência respiratória, enfisema, doença pulmonar obstrutiva crónica. A silicose associa-se também a maior risco de artrite reumatoide, de algumas doenças autoimunes e de lesão renal.
O que mostram os exames
Aqui a conversa pesa mais do que qualquer aparelho. Ao médico é preciso contar onde e em que trabalhou, com que materiais, a seco ou a húmido, se havia aspiração, se lhe deram máscara e de que tipo, e também os biscates e as obras em casa, que normalmente não se referem. Sem essa informação, uma radiografia com alterações é facilmente interpretada como outra coisa.
- Radiografia do tórax: é o ponto de partida; na silicose veem-se pequenos nódulos característicos, mais nos campos superiores.
- Tomografia computorizada: mostra o mesmo muito mais cedo e com mais pormenor, e é habitualmente ela que põe as coisas no lugar.
- Espirometria e outras provas respiratórias: medem quanta função já se perdeu e permitem depois acompanhar a evolução.
- Rastreio de tuberculose: na silicose é preciso ao diagnóstico e depois com regularidade.
- Por vezes acrescentam-se análises ao sangue e, se o quadro não for claro, o exame de uma amostra de tecido pulmonar.
Vale a pena saber que em muitos países a silicose consta da lista de doenças profissionais. Isso significa que, com diagnóstico confirmado, são possíveis o reconhecimento oficial da origem laboral, uma compensação e a mudança para um posto sem poeira; os procedimentos e as entidades variam de país para país e devem ser confirmados no local.
Tuberculose e cancro do pulmão: o que não pode esperar
Fala-se disto menos do que se devia. A silicose aumenta de forma apreciável o risco de duas doenças sérias, e ambas se tratam muito melhor numa fase inicial do que numa fase tardia.
Tuberculose. Um pulmão danificado pela poeira defende-se pior dela, e a incidência em pessoas com silicose é várias vezes superior à habitual. É preciso fazer rastreio com regularidade, segundo o esquema que o médico indicar, e não só quando já se sente mal.
Cancro do pulmão. A poeira de sílica está reconhecida como cancerígena para o ser humano: o risco está aumentado por si só e nos fumadores multiplica-se. É a razão mais forte para deixar de fumar precisamente com este diagnóstico.
Por isso há um conjunto de sinais perante os quais não se espera pela consulta programada, mas se recorre ao médico nos dias seguintes:
- tosse com sangue ou com laivos de sangue na expetoração;
- perda de peso que não sabe explicar;
- suores noturnos e febrícula prolongada;
- uma tosse que mudou: diferente na natureza, mais forte ou que não passa há mais de três semanas;
- dor no peito ou rouquidão que não desaparece.
À parte ficam as situações em que se chama a ambulância (em Espanha, Itália, Portugal, Polónia e Ucrânia o número único é o 112): falta de ar que piora depressa, não conseguir terminar uma frase, dor intensa no peito, lábios azulados, expetoração abundante de sangue, confusão. Uma falta de ar súbita com dor num dos lados pode significar a rutura do pulmão, coisa que acontece quando há cicatrizes.
A doença não se reverte: o que se faz então
Não há nenhum medicamento que dissolva as cicatrizes. Mas isso não quer dizer que não haja nada a fazer: a duração e a qualidade de vida dependem muitíssimo do que for posto em prática.
- Afastar-se da poeira. É a única ação que influencia a velocidade de progressão. Mudar de frente de obra, passar a outra operação, abdicar dos biscates com a rebarbadora — tudo o que reduza a entrada de poeira nova resulta.
- Deixar de fumar. Tabaco e silicose somam-se, e no que toca ao risco de cancro do pulmão multiplicam-se. Se não conseguir sozinho, diga-o ao médico: hoje existe ajuda eficaz.
- Vacinar-se: todos os anos contra a gripe e contra o pneumococo, e contra outras infeções respiratórias se o médico o aconselhar. Com pulmões cicatrizados, uma infeção vulgar tem uma evolução mais pesada.
- Tratar o que responde. Se as vias respiratórias estiverem estreitadas prescrevem-se broncodilatadores inalados; havendo infeção bacteriana, antibióticos; e com oxigénio baixo no sangue, oxigenoterapia no domicílio.
- Reabilitação respiratória. Um programa supervisionado de exercício físico e respiratório melhora bastante a tolerância ao esforço: pelo retorno que dá, é dos melhores investimentos de energia nas doenças do pulmão.
- Vigilância: consultas regulares, controlo da função respiratória e rastreios de tuberculose.
- O transplante de pulmão é ponderado nos casos graves, mais frequentemente em pessoas jovens; os requisitos de saúde são exigentes e a decisão cabe a um centro especializado.
Proteção: o que resulta e o que não resulta
A silicose é totalmente evitável. As medidas são conhecidas e atuam pela ordem em que aparecem a seguir: primeiro eliminar a poeira e só em último lugar proteger a respiração.
- Corte a húmido. Levar água ao disco ou à coroa retira a maior parte da poeira e custa pouco. Se a ferramenta o permitir e se estiver a trabalhar a seco, é a primeira coisa a mudar.
- Aspiração localizada. Captação da poeira na própria ferramenta, aspirador industrial com filtro de alta eficiência, ventilação do espaço. Um aspirador doméstico normal não serve aqui: devolve ao ar a poeira mais fina.
- Não varrer nem soprar com ar comprimido. A vassoura e o compressor voltam a levantar o que já tinha assentado. Limpa-se a húmido ou com o aspirador adequado.
- Isolar o trabalho. Cortar no exterior ou numa divisão separada sempre que possível, e não deixar por perto pessoas sem proteção.
- Máscara da classe certa. Uma máscara de pano, uma cirúrgica ou uma de gaze não protegem de todo contra a poeira de sílica: não retêm partículas desse tamanho e não vedam contra a cara. É preciso uma verdadeira máscara filtrante de partículas de alta eficiência e, em trabalhos pesados como a decapagem, um capacete com adução de ar. A máscara só funciona se vedar bem: a barba, mesmo de poucos dias, anula a proteção, e o equipamento escolhe-se pelo tamanho.
- Higiene. Não comer, beber nem fumar na zona com poeira, mudar de roupa no fim do turno e não levar a poeira para casa na roupa.
- Exames de saúde no trabalho. Se ao seu posto correspondem exames periódicos aos pulmões, não os falhe: existem justamente para detetar alterações antes dos sintomas.
A obrigação de garantir condições seguras e equipamento de proteção é da entidade patronal. Se há poeira mas não há aspiração nem máscaras em condições, é motivo para recorrer ao serviço de segurança e saúde no trabalho da empresa ou à inspeção do trabalho do seu país.
Consulta em linha
Aqui resolve-se muito a falar. O médico da Oladoctor ajuda a perceber se tem motivos para suspeitar de lesão pulmonar por poeiras e por que exames convém começar; explica como expor a sua história de trabalho para que seja realmente tida em conta; revê consigo as radiografias já feitas e os resultados das provas respiratórias; e diz-lhe que vacinas e que rastreios de tuberculose acompanham este diagnóstico e o que dá na verdade a reabilitação respiratória. Se pelo que descrever houver sangue na expetoração, perda de peso ou falta de ar a agravar depressa, dizem-lho de imediato e indicam onde recorrer sem demora.
Este material tem fins informativos e não substitui a consulta médica.





